Um Ensaio ao Desconfinamento

Digamos que as minhas necessidades pessoais são tão diminutas que me basta fazer umas breves incursões ao exterior assim a modos que uma vez em cada 3 meses. Sou assim um dos felizardos que nem sequer se sentiu confinado desde que passamos a um estado emergente. Eu e uns milhares de prisioneiros, que devem rir-se à brava do “sofrimento” de vários transeúntes desta vida que passaram (nem) 2 meses a lamuriar-se diariamente…

Confinação não foi sentimento que me tenha invadido neste período de estado de emergência e sequente estado de calamidade. Mas medo sim. Tenho uma péssima relação com o desconhecido. De tal modo que nunca seria capaz de fazer sexo com uma mulher, por muito boazona que fosse, na base do “one night stand”. Tenho medo do que não conheço, pavor às vezes. Este é o meu substrato e não me livrarei dele até ao encontro com a senhora Morte. Voltando à vaca fria[1], senti hoje necessidade de ir por aí fora. Desconfinar. Aproveitei e fui rodar a minha viatura porque uma viatura não deve ficar demasiados dias sem rodar. Curioso, nada me surpreendeu! Foi logo ao virar da esquina, à saída do meu quarteirão, que vi um dos sinais mais icónicos da nossa vida em sociedade (a normal, a desconfinada): um pequeno acidente de automóvel. Minha primeira conclusão: desaprenderam a arte da condução de um veículo de 4 rodas em menos de 2 meses…

Fiz um percurso entre Matosinhos e Porto que me é habitual quando preciso de ir ver o mundo que me rodeia de mais perto afim de verificar como vai esse meu pequeno mundo. E o que vi foi tudo menos um ambiente de estado de calamidade exceto na enorme ausência de estrangeiros. De resto, as pessoas estão todas numa de “Somos tugas, isto tá tudo controlado” ou “Nunca, jamais, vírus algum me afastará de acarinhar as minhas pessoas”. Pois, é isto mesmo que me assusta, a palermice de gente que de repente vira herói. Que de repente emite umas quantas parangonas fanfarroneiras porque acha que será vítima de fartas palmas de quem os ouve ou lê. E todos nós sabemos que os fanfarrões são os primeiros a cair num cenário de guerra, tal como a História nos tem dito. O pior é que os fanfarrões não estudam História ou, se a estudam, não conseguem interpretá-la. É que o nível de iliteracia do povo Português está no top 5 da Europa e talvez no top 15 do mundo.

Claro que encontrei alguns sinais de estado de calamidade. Entrei numa superfície comercial e toda a gente usava máscara. Porquê? Porque existia um “porteiro” que inspecionava quem entrava e até obrigava as pessoas a desinfetarem as mãos com gel. Ora aí está, o povo Português cumpre se ordenado. O povo Português tem alguma dificuldade em autoordenar-se. Esta nossa mesticidade entre povo Europeu e povo Latino deu lugar a um cantinho aqui à beira-mar cheio de transeúntes algo sui generis: os Portugas! Temos muita garganta. Mas só quando estamos entre amigos. Curiosamente, há alguns humoristas Portugueses que já apanharam esse nosso lado fanfarrão quando o inimigo está de costas ou até quando nem sequer está. Os tugas, andam por aí desconfinados numa boa, numa de “tá tudo bem, nós é que sabemos”. Não percebi bem onde começa e acaba o estado de calamidade porque… Só não vi estrangeiros (exceto os que não conseguiram fugir).

Uma coisa que vi muito, ao ensaiar o desconfinamento neste dia solheiro, foi a forma como as pessoas usam a máscara. Primeiro, as pessoas ficam aterrorizadas de parecerem feias e deram origem a uma nova indústria, a das máscaras anti-COVID! Elas são pretas, elas são rosa, elas são floridas, elas têm as cores do clube de eleição, elas são tipo menino ou tipo menina, elas combinam com a cor do cabelo, elas são… Hey pá, a mim custa-me a respirar debaixo daquilo e até agora não encontrei melhor que as de tipo cirúrgicas, ponto! Por outro lado, vê-se muita gente na rua, bem ao ar-livre, com máscara. E nem sequer estão acompanhadas. Para quê? Imagino que é para se habituarem à coisa já que a coisa agora faz parte da nossa indumentária básica. Tá bem, concordo. Se é para usar, usa-se a tempo inteiro, fazendo intervalos apenas para ingerir uns alimentos. Bem, essa é a visão de alguns porque a de outros, nem sequer usam máscara porque o corona só ataca os velhos…

O ser humano continua a ser um ser que me incomoda. Eu diria que quando somos apanhados numa cena que não conhecemos, a postura correta deveria ser a de um aprendiz que escuta o seu mestre: de aprendizagem. Mas não, o ser humano é fanfarrão e sempre sabe tudo. Até sabe que tudo isto é um castigo divino. Ou, dizem outros, é uma qualquer vingança da mãe Natureza, visão esta que me custa a encaixar porque mãe pode ser muita coisa mas vingar-se nos seus filhos não é propriamente o atributo maternal mais comum. E depois, a mais aberrante das aberrações ultimamente proferidas: “nada será como dantes”. Que idiotice! Em menos de um piscar de olhos está tudo a voltar a ser como dantes e ainda estamos em estado de calamidade…

Que os deuses me ajudem a desconfinar, se é que algum dia desconfinarei. Para já vou manter-me confinado. Sou mais feliz assim…

  1. Se calhar vou ter que pesquisar algo sobre esta expressão…

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