Touradas? Não, obrigado!

Apesar de ter enveredado pelo mundo das engenharias, relembro hoje, alguns dias depois da deputada Cristina Rodrigues ter poposto o fim das touradas em Portugal, que História era uma disciplina que me atraía bastante. Entre muitas histórias que fui avidamente aprendendo, uma ficou-me no cérebro até hoje: os espetáculos crueis levados a efeito pelos romanos nas suas majestosas arenas! Principalmente o atirar cristãos para as arenas (coliseus) onde desarmados teriam de enfrentar feras esfomeadas…

Estes shows sanguinários seriam com certeza considerados então espetáculos culturais (o cristianismo era oposição às convicções religiosas da Roma imperial) e com o tempo terão passado a tradição. Cultura e tradição, duas razões consideradas pelos representantes do povo da época mais que suficientes para serem mantidos durante muito tempo. Cultura e tradição! Claro que ao redor destes shows bárbaros orbitavam os mais que muitos interesses económicos dos empresários dos espetáculos e, obviamente, dos seus “padrinhos” bem colocados nas cadeiras do poder e que garantiam que o povo via a carnificina como um ato de superior cultura. Viviam-se os anos 200 depois de cristo, mais coisa menos coisa…

No ano de 2021, depois de Cristo, ou seja, cerca de 1800 anos depois, os cristãos portugueses já não têm quem os envie em forma de cultura e tradição para as arenas para serem objeto de diversão, enquanto seriam esquartejados e devorados por bestas, mas viraram eles mesmo bestas ao divertirem-se com a tortura de animais, em espetáculos estupidamente rotulados de tradição e cultura. Hoje, tal como em 200 d.c., também vemos os empresários dos espetáculos a lucrar com a tortura e, obviamente, os seus “padrinhos” bem colocados nas cadeiras do poder a garantirem que o povo vê a carnificina como um ato de superior cultura.

Portugal não é já um país do terceiro-mundo mas mantém orgulhosamente resquícios dessa época negra que alguns de nós, felizmente cada vez mais, se esforçam para não mais ser repetida. Ao mantermos as touradas, estamos silenciosamente, cobardemente portanto, a dar razão aos atos dos Talibãs, do Daesh, dos perseguidores dos negros nos países onde impera o apartheid, dos Putins, dos Lukashenkos e Jon-Uns desta vida, pois todos eles sabem sapientemente embrulhar as suas barbaridades em finos e lustrosos papeis de tradição e cultura. Teimosa hipocrisia esta dos portugas que afoitamente vão para a rua protestar contra a violência nas casas dos outros, quando bem ao seu lado, na sua própria casa, ela é praticada sobre pessoas e animais…

Ver artigo sobre o projeto lei defendido pela deputada Cristina Rodrigues para abolição de touradas em Portugal.

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