Tetralogia Da Aprendizagem em 3 Atos

Num país onde percebo que toda a gente pensa saber, afinal nem toda a gente entende que não sabe. Entre o perceber, entender, compreender e saber, existem aqueles que, como eu, antes de mais percebem. Depois, se se favorecer e aprouver, passa-se a fases como entender, compreender e saber. Estou em crer que quando se compreende está-se em condição necessária e suficiente para deliberar sapientemente mas nada melhor do que aprender para saber deliberar mais apropriadamente!

Já aqui[1] falei no quanto me irritam as pessoas que começam ou intercalam amiúde as suas conversas com o “sabemos que…” ou “sabíamos que…” e que demonstram que afinal na maioria da vezes nem sabem, nem sabiam. Quando sabemos estamos então perante um assunto que podemos dominar porque “saber” é o derradeiro estágio para a tomada de decisão. E quando sabemos então muito provavelmente acertamos na decisão. E quando acertamos na decisão acertada não é inevitável que não tenhamos sucesso no resultado da nossa decisão porque o saber não é um poder absoluto, ou seja, não é omnipotente. Logo de imediato, a omnipotência não existe e, a seguir, convenhamos que a nossa condição de humanos nos torna seres muito limitados o que leva a inevitáveis erros, até nas boas decisões! Uma decisão só é boa depois de tomada, concretizada e finalmente comprovada empiricamente como tendo dado origem a resultados positivos. Mesmo assim, o facto de os resultados de uma decisão serem ou não positivos sempre dependem de quem os avalia pelo que a prática mais aconselhável é sermos nós próprios os principais avaliadores das decisões em questão, coadjuvados por outros avaliadores por nós certificados. Se o conluio entre todos estes os levar a concluir que os resultados de uma decisão são em média positivos, então estamos bem e poderemos prosseguir o caminho da tomada de decisões com base no efetivo saber.

Vejamos como cada um de nós se posiciona acerca de um dado assunto quando somos solicitados a enfrentá-lo:

  1. Perceber, tem origem na palavra do Latim percipĕre e significa o mesmo que ter a percepção, recolher informação pelos sentidos. Por exemplo, muitos portugueses percebem a palavra “acknowledgement” porque a identificam como uma palavra inglesa mas não a entendem, porque simplesmente desconhecem o código sobre a qual ela foi construída (língua inglesa). Assim, essa palavra não passará de um som que poderão replicar ou não mas que lhes é estranho no seu sentido, logo não saberão usá-la ou usa-la-ão erradamente.
  2. Entender, tem origem na palavra do Latim intendere e significa captar o sentido, o significado. Usando o exemplo anterior, há portugueses que percebem e entendem a palavra “acknowledgement” e porque a entendem conseguem explicar o que é e assim conseguem usá-la apropriadamente.
  3. Compreender, tem origem na palavra do Latim comprehendere e significa perceber, entender e organizar algo na mente. Os que compreendem a palavra “acknowledgement” começam a ficar dotados da capacidade de a enquadrar e manusear apropriadamente em contextos diversos com usufruto próprio em qualquer um deles.
  4. Saber, vem do latim ‘sapere’, que significa «ter gosto; exalar um cheiro, um odor, perceber pelo sentido do gosto’. Parece que o verbo ‘saber’ evoluiu na vida e representa hoje algo bem mais elaborado. O saber é o resultado da inteligente gestão da compreensão. Por vezes conseguimos tal desiderato, saber, por nós próprios e aí tornamo-nos auto-didatas. Noutras vezes recorremos a alguém para atingirmos esse mesmo desiderato, ou seja, precisamos de aprender através de outros para assim adquirirmos o saber.
Vou pensar...

Esta minha divagação sobre a aprendizagem e sua organização em 4 fases sequenciais é uma singela balela sobre algo sem interesse algum! Uma trivialidade inútil ou uma inutilidade trivial. De facto, o vulgar tuga (e se calhar muitos outros seres deste mundo) usa os 4 verbos (perceber, entender, compreender e saber) de forma totalmente indiferenciada mas com maior incidência no verbo ‘saber’. Isso, tenho constatado que o tuga nutre uma especial preferência pelo verbo ‘saber’ e por isso não falta por aí quem saiba ou, se preferirem, não faltam sabidolas por esse território fora. Numa terra em que o tuga não se dá ao trabalho de faseadamente perceber, entender, compreender e saber, pois ainda não conseguiu ultrapassar a perspetiva tipicamente infantil do “eu é que sei, eu é que sei”, os homens-tuga lêem primordialmente os jornais desportivos e as mulheres-tuga lêem as revistas cor-de-rosa[2]. Isto no equivalente em TV corresponderia aos homens-tuga verem o futebol e as mulheres-tuga verem a telenovela pelo que podemos mesmo ter que aceitar pacificamente o porquê dos níveis de iliteracia neste país serem preocupantes! Pior ainda, a mente humana sofre um cada vez maior constrangimento com este hábito tão moderno de manter a cabeça para baixo e a teclar sobre um rectângulozinho tão cheio de coisas a passarem-nos à frente dos olhos a velocidades inter-galácticas…

À semelhança do que acontece com outros povos latinos, o tuga é crente. O tuga acredita, logo sabe!

Que os deuses, na sua sapiência, dediquem aos tugas a conveniente paciência. Amén!

  1. Neste meu blog…
  2. E lá fui eu a correr ver se ainda existe a tão famosa Revista Maria que o mulherio lia na minha infância. E sim, existe! Ver aqui

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