Recuperação & Resiliência

Plano de Recuperação e Resiliência! Uau… Não sei quem é o autor deste superior título nem qual a intenção que suportou a criação do mesmo mas pelo menos resulta muito bem como acrónimo: PRR. “Pê-érre-i-érre” soa bem, não soa? Soa, embora a mim me faça lembrar os planos de poupança-reforma que instituições diversas tanto têm apregoado por esse país fora. Mas não, não se fala dessa reforma neste plano pois essa reforma é coisa que os nossos sucessivos governos vão atirando para as calendas gregas

Comecemos por um pequeno esclarecimento: resiliência não é igual a resistência! Pode haver aí um ténue laço familiar mas pronto, não são a mesma coisa. Depois, existem duas definições para esta palavra. Comecemos pela definição no âmbito da Física (estudo dos materiais):

Resiliência é a capacidade de um material absorver energia quando é elasticamente deformado por uma força externa e de libertar essa mesma energia quando já não está sujeito a essa força, voltando ao mesmo estado em que se encontrava antes da aplicação da referida força.

Assim sendo, a resiliência de um material é tão mais elevada quanto mais energia absorver sem que tal provoque qualquer tipo de deformação permanente. Imaginemos então uma mola apoiada numa mesa como se mostra na seguinte figura. A sua posição de descanso, a posição normal, é a 1. Consideremos que a mola vai sofrer uma compressão devido à força dum dedo até à sua altura mínima tal como se vê na posição 2. Finalmente, quando o dedo deixa de pressionar a mola, ela volta a ficar como estava inicialmente, ou seja, sobe naturalmente até à sua posição inicial, posição 3 (igual a 1).


Sobre a resiliência…

Chato não é? Parece uma enfadonha aula de Física mas ajuda um pouco a entender o que é resiliência, certo? Continuando, então… É bom que as molas se portem assim, de forma resiliente, caso contrário iríamos ter bastantes problemas mecânicos na nossa vida, por exemplo, as suspensões dos nossos carros. Também é bom que, em muitas situações da nossa vida, nós seres humanos sejamos assim. Mas antes de avançar mais vamos à definição de resiliência no âmbito do comportamento humano (psicologia):

Resiliência é um processo em que um indivíduo consegue ultrapassar situações de stresse ou adversidade e voltar ao nível de bem-estar de que era dotado antes de se deparar com essas situações de cariz traumático.[1]

Chegámos então ao busílis da questão! Primeiro, a resiliência já pressupõe a ação de recuperação dos materiais (ou das pessoas) o que me leva a pensar que existe alguma redundãncia no nome PRR. Por outro lado, essa recuperação assume que o material (ou a pessoa) sujeito a uma ação de stress voltará ao estado em que se encontrava antes do início dessa ação. Isto é ótimo se estivermos a falar de materiais, é péssimo, repito, é péssimo se estivermos a falar de portugueses. Porquê? Porque nós não estavamos nada bem antes da pandemia e será muito mau se depois da pandemia voltarmos a ser e a estar como eramos antes dela. Será muito mau mesmo até porque significará que nada temos aprendido e que em nada mudámos, pior, em nada progredimos. Digamos que quem inventou o nome deste plano, o PRR, não estava muito inspirado e não esteve com estas considerações todas pelo que apenas mandou cá para fora algo que lhe pareceu politicamente, estéticamente e do ponto de vista motivacional correto, assim na base do “vamos resistir, vamos recuperar, o povo é sereno, daqui ninguém sai, daqui ninguém arreda pé”. É por estas e por outras que tenho sérios problemas em lidar com os auto-intitulados técnicos de motivação, seja ela de massas ou de indivíduos, que se divertem a inventar uns sonantes slogans motivacionais para porem o povo a bulir, sem que o povo pense muito na forma como bule, porque o faz e para que o faz…

Se somos resilientes então garantidamente temos a capacidade de recuperar. Porém, recuperar a posição que tínhamos há mais de um ano vai significar que:

  • continuaremos muito pouco produtivos,
  • continuaremos a não produzir riqueza suficiente,
  • continuaremos a ser os pobrezinhos do sul, eternamente de mão estendida!

É isto que pretendemos? É isto que vamos deixar como herança às gerações seguintes? Se é, então elas já estão a aprender que gastar o que não se tem é ser “brutal”, sendo que “brutal” para os jovenzinhos de hoje passou a significar coisa fantástica[2] que eles querem repetir até à exaustão. Eu não quero regressar a fevereiro de 2020! Eu prefiro regressar a 2022, 2023 ou 2024 com a atitude guerreira de quem quer vencer por si mesmo e assim conquistar o direito de possuir algo seu, sob sua própria gestão, à semelhança dos feitos perpretados por alguns ilustres antepassados nossos. Recuperar? Sim, claro. O orgulho nacional que se perdeu algures no tempo, talvez com o malogrado rei que supostamente deveria ter regressado numa manhã de nevoeiro. Ser resiliente? Sim, claro. Ter a capacidade de atravessar situações adversas e permanecer em pé, ou cair e logo levantar para continuar a caminhar em direção ao bem-estar nacional para o qual cada um de nós deveria contribuir…

A Dimensão Resiliência aparece descrita sucintamente na página 35 do sucinto resumo do PRR, disponibilizado pelo governo no seu site oficial mas que também pode obter clicando no seguinte link:

  

Para esta dimensão diz-se que será disponibilizado 61% do montante total de ajudas alocado a Portugal pela União Europeia. Eu congelei logo aqui, no primeiro exemplo das ações a levar a efeito relativas a esta dimensão:

dotar todos os Centros de Saúde com gabinetes de medicina dentária e equipamentos (saco de emergência, desfibrilhador e monitor de sinais vitais) para resposta qualificada em emergência (suporte básico de vida);

Enquanto nos Estados Unidos[3] o Plano Dentário (Dental Care Plan) é há décadas um dos benefícios básicos oferecidos pela maioria das empresas aos seus trabalhadores, em Portugal chegámos a 2021 ainda sem ter percebido a relevância de uma boa saúde dentária. Mas pior ainda, só agora percebemos que seria muito útil todos os centros de saúde estarem equipados com equipamentos que garantam uma resposta qualificada em emergência médica, básica. Porém, se continuarmos a ler a dimensão resilência, não soa melhor o compromisso de:

aumentar o salário mínimo nacional para 750 euros até ao 4.º trimestre de 2023;

Nenhuma família vive com esta ordem de grandeza de salários, apenas sobrevive. E já agora, auferindo 750 euros como podem mães e pais garantir computadores e internet aos seus filhos para que possam assistir remotamente, nesta ou eventuais futuras pandemias, às aulas que por segurança não podem acontecer presencialmente? E como poderemos assim integrar as famílias portuguesas no tão propalado Portugal Digital se a cobertura do nosso diminuto território nacional, garantida pelas cada vez mais milionárias operadoras de telecomunicações, é ainda miseravelmente diminuto? Descobrimos apenas agora que Portugal é um antro de desigualdades sociais? E quanto tempo vamos levar a descobrir que pagamos a eletricidade e a internet muito mais caras que em vários outros países da União Europeia? E quanto mais tempo precisamos para perceber que de pouco adianta o aumento do salário mínimo se serviços como os transportes, energia, internet e se bens básicos de consumo aumentam numa porporção superior à do aumento salarial? Dá vontade ser resiliente para irmos de novo de encontro as tais miseráveis condições em que uma grande parte dos nossos compatriotas vivem?

Num país onde os crimes de colarinho branco são já uma tradição tão enraízada e protegida como a tortura de animais em praça pública, não surpreende a repentina necessidade de formação de comissões de supervisão dos dinheiros que virão da Europa, seja na Presidência da República, seja na Assembleia, seja onde for. Primeiro porque de facto estamos a falar da astronómica quantia de 50 mil milhões de euros em apoios a fundo-perdido. Segundo porque os portugueses têm uma tendência natural para a vigarice. Por último, porque neste país ninguém confia em ninguém, principalmente quando se ouve falar de quantias que, mesmo pondo os zeros todos (EUR 50 000 000 000.00), nem dá para imaginar! Neste país de justiça dúbia e retardada onde ser bandido compensa, até porque outrora outras ajudas simplesmente se desvaneceram sem sequer ninguém lhes ter sentido o cheiro, parece ser melhor mesmo garantir que se nomeiam supervisores dos supervisores que vão supervisionar a supervisão da aplicação de tão choruda esmola Europeia porque, pelo menos, criam-se postos de trabalho adicionais, embora prediga já que serão mais uns jobs for the boys tal como sempre tem sido. Para além disso, a coisa a correr mal como habitualmente acontece, ficará bem complicado e lento descobrir no meio de tanta supervisão a quem se devem atribuir as culpas. E será mais um processo a prescrever…

E assim finda mais uma divagação, quiçá um devaneio, de um velho deste país que não é para velhos, reduzindo-se à sua insignificância mas permanecendo no entanto muito expectante quanto ao desenrolar deste plano de recuperação de um país que nunca soube planear e talvez por isso anda há décadas a tentar recuperar, com ou sem resiliência subsidiada, sem que se vislumbre, ao perto ou ao longe, qualquer sucesso!

  1. Bom, após alguma pesquisa é fácil encontrar diferentes opiniões sobre este conceito. Optei por esta versão mas aviso já: sou engenheiro!
  2. Salta-me a tampa de cada vez que os nossos jovenzinhos de hoje se elogiam uns aos outros com um “tu és brutal”.
  3. E também no Brasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.