Ode À Inocência

A inocência assenta na ignorância. Na falta do conhecimento. Na ausência da experiência. E à medida que vamos adquirindo todos esses atributos, a inocência vai-se desvanecendo. Cada vez mais, dia após dia. Até que de repente, um dia acordamos, olhamo-nos ao espelho e vemos um adulto…

Lembro-me que na idade da inocência nunca desejei ser crescido. Fui vivendo a minha era da ignorância adotando a mais adequada das posturas, a de aprendiz. Talvez tenha nascido comigo a convicção de que antes de ensinarmos temos que aprender. E com certeza aprendi pela força das circunstâncias que tudo tinha um tempo, que teria de dar tempo ao tempo e que deveria saber esperar. E em mim foi-se incutindo um enorme receio de ser crescido. Os crescidos assustavam-me. Eram dotados de comportamentos que eu tinha dificuldade em entender. Mas é óbvio que na ignorância, na falta do conhecimento e na ausência da experiência, se entende com facilidade o porquê de tanta dificuldade em entender. Na idade da inocência não somos profícuos em atos inteligentes porque esses são típicos de fases posteriores. Fases em que a inteligência estará supostamente solidificada. E somos tanto mais inteligentes quanto mais formos capazes de compreender o lado faseado do crescimento. Cada minuto segue-se a outro. Cada dia segue-se a outro. Cada semana… Cada mês… Cada ano…

Na minha idade da inocência, o adulto era um bicho estranho. Complicado. Cruel. Por vezes violento. Observar e ouvir era uma necessidade que se tornava naturalmente imperiosa. É precisamente nessa fase de desenvolvimento do ser humano que a inteligência ganha espaço a contribuir para o entendimento da sua mais básica necessidade: a sobrevivência. Não aprendemos que temos de sobreviver. É algo que nasce connosco. É informação já fazendo parte da nossa essência, do nosso substrato, do nosso «firmware». Aprendemos a lidar com a sobrevivência. E aprendemos que a nossa sobrevivência depende desse bicho estranho que é o adulto. E olhamos esse bicho estranho e por vezes nos assusta. E passa a fazer parte dos nossos sonos. Dos nossos sonhos. E, tal como com qualquer outra coisa, às vezes sonhos bons, outras vezes sonhos que perturbam. Mas o bicho estranho está lá, faz parte do filme em que somos o ator principal a personificar a inocência, por vezes o turbamento mas seguramente o elo mais fraco numa trama que é a vida. Essa vida que nos vai roubando a inocência e ao longo da qual vamos assumindo diferentes papeis, por vezes diferentes personagens.

Um dia acordei, olhei-me ao espelho e vi um adulto. A inocência já lá não estava. E como já era adulto passei a ser um bicho estranho. E já como bicho estranho continuei a ver que a vida continuava a ser uma trama. Um filme em que vamos assumindo diferentes papeis. Mas como adulto já não era dotado de inocência. No entanto, os adultos como eu continuavam a assustar-me. Porém, os seus comportamentos já eu era capaz de entender. De equacionar. De resolver. De catalogar. E cataloguei todos os adultos na secção “Coisas Que Não Prestam”. Foi fácil. Já não faziam parte dos meus sonos. E muito menos dos meus sonhos. E como a inocência já não ocupava o espaço da inteligência, aprendi, com relativa facilidade, a mover-me num filme cheio de coisas que não prestam, aceitando com extrema naturalidade que o que não presta faz parte da vida. E a vida é como um televisor, podemos mudar de canal. E começamos a ver outro canal. E ainda outro. E tantas vezes quantas as necessárias até sintonizarmos o NOSSO canal. O tal canal. Aquele em que os bichos estranhos nos parecem os menos estranhos de todos. E então, porque somos inteligentes e porque a inteligência nos permite ver ouro onde pouco mais que caca existe, aceitamos esse canal como sendo o nosso favorito. O tal canal. E começamos a acreditar que somos felizes a ver esse canal. E queremos fazer parte desse canal. E até vamos vendo os outros canais para podermos dizer “olha que caca”. E gostamos de chamar caca a quem não nos apraz. E verificamos que no nosso canal parecemos todos menos estranhos quando nos rimos em conjunto da caca que os outros canais são. E enquanto somos felizes com a caca que os outros são, nem vemos que bem perto de nós há olhos inocentes que nos vêem como bichos estranhos. Uns vão querer fazer parte do nosso canal. Outros vão querer sintonizar outro canal. E nesse canal, o tal canal, vão um dia, quando forem bichos estranhos, querer em conjunto rir-se de nós, os de um outro canal, enquanto nos catalogam como caca…

“Puff, The Magic Dragon”
Poema de Leonard Lipton (1959)
Música de Peter Yarrow (membro da banda Peter, Paul & Mary).
Cover por banda Japonesa Hi Fi Set (1974-1994).

“Puff, o Dragão Mágico” é um tema parabólico sobre a inocência. Aparenta ser, logo nos primeiros acordes, um tema infantil. Mas não é. É um tema sobre a infância, os sonos e sonhos da inocência. Sobre a forma não inteligente como nós, nessa fase, espreitamos a vida. A forma não inteligente como nos vamos posicionando perante esse bicho estranho que nos vai prolongando a oportunidade de vermos o mundo. O vivenciarmos. E crescermos vendo-o, de preferência sentados na nossa zona de conforto. Tudo isso até ao dia em que acordamos, olhamo-nos ao espelho e vemos um adulto. E nos tornamos um bicho estranho. Um bicho que decide que “Puff, O Dragão Mágico” é uma história sobre drogas, alucinações, marginalidade. Um bicho tão estranho que continua a acreditar que “Puff, O Dragão Mágico” é um cântico florido ao lado mau da vida, mesmo depois de repetidamente os seus autores afirmarem publicamente que “Puff, O Dragão Mágico” não é mais que uma história inocente sobre a inocência que um dia acaba. Mas os bichos estranhos que começaram por ser inocentes, que um dia acordaram, olharam-se ao espelho e descobriram que já não o eram, têm sempre esta visão perniciosa da vida. Vida essa que é um filme que passa no canal que escolheram como sendo o seu favorito. Os bichos estranhos, os adultos, sentem-se mais adultos vendo sempre a vida como um filme de gangsters, tiros e perseguições, putas, whiskey e charutos, tramas e ardilosas cenas sobre algo muito intricado. Em suma, aquilo que lhes faz aumentar os níveis de adrenalina, de que tanto parecem precisar. É precisamente o descontrolado nível de adrenalina que os impede de ver inocência em “Puff, O Dragão Mágico”. Seria demasiado básico. Demasiado simples. Demasiado infantil. Demasiado inocente. Demasiado suspeito…

O mundo já não tem tempo, paciência, para tanta inocência…

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