Nação Valente de Resignados Velhos -p2

O que a pandemia da COVID-19 está a revelar é que não há nada de novo neste país: estamos uma população cada vez mais envelhecida e constituída por velhos em grande parte incapazes de se defenderem!

Os Portugueses são um povo resistente, já existimos desde 1139, mas também não há memória de uma população que simplesmente tenha desaparecido de um dia para o outro. O normal é irmos desaparecendo, certo? E isso já está a acontecer há vários anos. A curva é de tal modo ascendente que se prevê que em 2050 metade da população seja constituída por velhos, ou se preferirem, idosos. Mas afinal o que é um idoso? É aquele homem ou mulher que deixou de ser ativo e passou a ser passivo. Dito doutra forma, é aquele homem ou mulher com 65 ou mais anos que já está atirado para canto, ou seja, reformado e por isso não é suposto ser um contribuinte para o bem comum, que se traduz principalmente no pagamento de contribuições e impostos. De facto, o idoso em Portugal consome até demais porque somos um país de parcos recursos onde as pessoas acabam a vida a pedinchar, sem terem onde cairem mortas…

Os Portugueses não são notáveis. Não são, pronto! Não gostamos de estudar. Temos alguns hábitos de leitura que não vão muito para além do jornal desportivo e da revista cor-de-rosa. Gostamos pouco de trabalhar. Aliás, trabalhamos para o fim-de-semana. Ou para as férias. Ou então para a reforma. Mas trabalhamos pouco, porque as reformas em Portugal são diminutas. Tanto como o nosso esforço para fazer delas algo realmente chorudo, compensador e reconfortante nos últimos anos de vida. Resulta daí então este panorama latino-português que é pouco simpático para outros povos, outras culturas mais “à frentex”: os nossos velhos são atirados à sua sorte…

E como não somos como a formiga, que se esforça no verão para passar um inverno com algum conforto, somos como a cigarra[1]. Não é surpreendente então que os nossos velhos morram por isto e por aquilo, por dá cá aquela palha! Na maior parte das vezes, os nossos velhos são esquecidos pelos próprios filhos a quem deram vida e por quem lutaram uma vida. Só que os nossos velhos não podem queixar-se muito porque cigarra nasce cigarra e morre cigarra. Filho de cigarra é cigarra. E o fim da cigarra hoje será o que foi o fim de seus pais ontem tal como será o fim dos seus filhos amanhã porque são todos igualmente cigarras. Ou seja, pescadinha de rabo na boca ou, como dizia um gajito que conheci em tempos idos, “quem nasce para 5, não dá 10”.

Os velhos em Portugal são seres indefesos. E por isso nem sequer admira que em tempos de confinamento pandémico eles saiam à rua como se nada fosse, sem máscara nem nada. E também não admira que, quando interpelados, afirmem com a maior das naturalidades que “se forem apanhados pelo bicho, paciência, já viveram o que tinham a viver”. Velho Português é um ser resignado. Em paz com a sua sorte ou, na maiorida dos casos, com a falta dela. Velho Português gosta de se lamuriar. Emitir juízos de valor atribuindo a todos menos a eles próprios as causas do seu infortúnio. Velho Português vive triste com o seu passado do qual sempre afirma que deu sangue e suor pelos seus e ninguém o reconheceu devidamente. Velho Português encurva-se rapidamente sobre si mesmo por não resistir a tanta resignada amargura. E todos sabemos que quanto mais nos curvamos mais nos querem curvados. Ou não estivessemos nós no topo da pirâmidade dos mais maldosos seres vivos do planeta…

A continuarmos assim, a extinção da espécie é o nosso destino. Os jovens? Não lhes apetece casar. Se casam, não lhes apetece ter filhos. Se têm filhos só se for um ou, máximo dos máximos, dois. São já seres muito cansados e no fundo, no fundo, não estão para deixar de jogar play-station para mudar as fraldas a uma criaturinha mal-cheirosa. Imaginem agora, mudar as fraldas ao velhote ou à velhota que já não aguentam o pipi na bexiguinha. Ou fazer-lhe umas massagens naquele joelho chato que já foi em tempos uma articulação que articulava sem dó nem piedade mas que agora… Dá uns estalidos e dói p’ra caraças! Ou ter que duplicar ou triplicar a mesma coisa com uma intensidade como se estivesse a chamar a vizinha do outro lado do prédio. Naaaa… Jovem tem mais que fazer do que dedicar algum do seu tempo e da sua paciência a quem lhes deu anos de vida desde que lhes deu vida. Naaaa… Não faltam lares por esse país fora onde eles vão estar bem, com os amiguinhos deles e bem tratados por profissionais…

E então é assim que os velhotes morrem por esse país fora. E esse dia, o da sua morte, acontece ser para uma grande parte deles o mais feliz da sua vida, pelo menos a mais recente. Não há remédio mais eficaz que a “senhora Morte”. Com ela desaparece tudo, a hipertensão, a diabetes, a arteriosclerose, o reumatismo, a incontinência urinária, as dificuldades respiratórias… Enfim, limpeza total, incluindo aquele terrível peso sobre si mesmo por se sentir um peso sobre os outros. Sim, os velhos Portugueses morrem amiudemente esquecidos. E os velhos morrem esquecidos porque alguém os esqueceu. E esse alguém é a cigarra-filho que, como os seus pais, está labutando sem dó nem piedade para durante o verão pouco fazer e assim durante o inverno pouco ter para comer.

Esta é a fábula dos Portugueses, um povo de brandos costumes e famosa hospitalidade que não só mata os seus velhos mas que também mata as suas Valentinas[2]

  1. Referência à fábula de Esopo, A Cigarra e a Formiga.
  2. Referência ao violento homicídio de uma criança pelos seus pais, acontecido em Peniche este ano.

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