Modo Desrespeito

O que faz com que nos tempos que correm as pessoas comutem facilmente o seu comportamento para o modo desrespeito? Foi a geração anterior? Não, a geração anterior também o faz! São as novas tecnologias? Não, sempre existiram as novas tecnologias…

Nesta época natalícia muito pouca coisa é diferente do que sempre foi. Mas há uma que é diferente. E para pior: cada vez nos respeitamos menos uns aos outros! É impressionante a velocidade com que atingimos os outros com impropérios por tudo e por nada. Como sói dizer-se, por dá cá aquela palha[1]. A ofensa aparenta ter passado a moda. Os modismos são um sintoma das sociedades atuais. Todos sentem necessidade de criar moda. Todos se sentem bem se estiverem na moda. Ninguém se incomoda com o facto de sofrerem da síndrome da manada[2]. É bonito. É cool. É cool usar a palavra cool[3]. É moderno. É sinal de ativismo. E até Jesus Cristo era assim[4]. É muito “eu é que sei, eu é que sei”[5]

A causa para mim é óbvia: Efeito Dunning-Kruger. Alguém quis convencer-nos (e conseguiu) que vestir de uma certa maneira excêntrica, arranhar uns tattoos[6] no corpo, espetar uns piercings no caralho ou na pachacha e conversar a berrar o mais que se possa, é cool. E se as pessoas acreditam que Jesus Cristo recebeu em palhas deitado, aquecido por um gado qualquer, três poderosos reis de um mundo que se imagina que existia, então acreditam em tudo. E por isso acreditam que berrar muito e o mais alto que se possa, lançando ao vento os impropérios que lhes vêm á cabeça coberta de cabelos roxos (ou outras cores artísticas) ou de falhas dele, é que é. É cool. É moderno. É sinal de ativismo. É muito “eu é que sei, eu é que sei”…

Respeito significa: conhecer o meu espaço, aceitar que o outro tem o dele e pedir educadamente licença para nele entrar. Há quem lhe chame bolha. Também gosto da ideia. Cada um de nós vive no interior de uma bolha que representa o nosso mundinho. E se nos movimentarmos no nosso quotidiano com a preocupação de não rebentar a nossa bolha e a do outro, movimentar-nos-emos então em modo respeito. Au contraire, se atribuímos a nós próprios o direito de invadir a bolha do outro a qualquer hora e momento, ligamos o modo desrespeito. E isso passou a trivialidade nos tempos modernos. Porque sofremos de um mal crónico e cada vez mais grave que pode chamar-se Efeito Dunning-Kruger mas que também pode chamar-se “alinhas ou fodo-te.”

E porque não temos pachorra para respeitar os outros, vamos então cada vez mais optando por viver para nós mesmos. Por nós mesmos. E já não queremos casar. E se estamos casados, já nem queremos filhos. E até descasamos por razões importantes como “o gajo nunca levanta a tampa da sanita quando vai mijar”. E os putos batem nos professores. E os pais dos putos que batem nos professores também aproveitam e “vão molhar a sopa”. E os filhos batem nos pais. E os pais dos filhos que batem nos pais, atiram com os seus pais para um qualquer lar da terceira-idade. E o povão diz alto e em bom som que o nosso presidente é um cabrão (ou pior). E o funcionário público diz “se está com pressa vá p’ró caralho”. E as mães atiram com os filhos recém-nascidos para o contentor do lixo mais a jeito, ato que lhe dá direito à solidariedade da elite que gere a saúde pública. E o marido bate na mulher. E a mulher bate no filho. E o filho atira o pau ao gato. E volta a levar porrada por ter batido no gato que, mesmo não morrendo, custou aos pais um super-chato quiprocuó com a sociedade protetora dos animais, um clube constituído por pessoas que quanto mais conhecem o Homem mais gostam dos animais…

No meio disto tudo, o Donald Trump é um santo e Natal é quando um homem quiser…

  1. Expressão da qual desconheço a origem e por isso espero estar a usá-la com o sentido correto: por algo insignificante.
  2. Comportamento de manada ou efeito manada.
  3. Palavra associada que passou a partir de certa altura a designar coisas fixes, porreiras, na onda, na moda…
  4. Imagino eu… Se assim não for então não faz muito sentido ser-se cristão ao mesmo tempo que se atenta contras as máximas cristãs.
  5. Recomendo fortemente! Todos os dias na Rádio Comercial.
  6. Tatuagens.

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