Mitigação

Confessemos que estamos todos muito desconfortáveis com o facto de termos de viver em clausura forçada na nossa zona de conforto. Certo?

Errado! Começa logo pelo facto de não sermos todos. Talvez a esmagadora maioria. Depois há aquele problemazinho em que para muitos a sua própria casa não é a sua zona de conforto. Esta situação resulta de uma realidade que não é Portuguesa, é humana. O “Lar Doce Lar” não é assim tão doce para muita gente. É azedo, é amargo, é difícil de aturar. É sofrimento contido. É a realidade de muita, mesmo muita gente que não tem capacidade de procurar um lar alternativo e por isso sofre diariamente o desprazer de ter que conviver com a sua própria família.

A mitigação começou. Este vírus apanhou-nos ao virar da esquina, está a matar indiscriminadamente e ainda ninguém o conseguiu colocar numa fórmula afim de o resolver. Sim, a matemática é perfeita mas só funciona se conseguirmos formular. E formular é tão difícil. E este CoronaVírus está a dar um grande baile a toda a gente e a mostrar-nos todas as nossas fragilidades, que há muito atirámos para as cucuias[1] porque decidimos nesse dia que não somos frágeis. Isso mesmo, “dos fracos não reza a História” e todos somos tão orgulhosos da nossa excelência que fazemos questão que a História nos reze.

A mitigação começou. E com isso estamos a descobrir, séculos depois, que estamos tão inconscientemente a fazer tão mal ao planeta e a nós próprios que só uma criatura microscópica (e por isso “invisível”) nos obriga a mitigar. Já devíamos estar a mitigar há muito, quanto mais não seja a partir do momento em que outras pandemias apareceram neste mundo, como por exemplo a estupidez. Nós causamos elevado impacto no nosso planeta e muito dele é altamente negativo. Nós estamos há muito sofrendo de tão forte ansiedade em mostrar poder sobre tudo, e sobre todos, que isso nos tem turvado a visão ao ponto de não conseguirmos ver nem um elefante à nossa frente, a menos de um metro de distância. E a isso não se chama hipermetropia. Chama-se decadência. A decadência de um animal dito inteligente que decidiu há muito deixar de transformar tudo o que toca em ouro para transformar tudo em merda.

A mitigação começou. Será que vamos tirar lições desta nossa súbita necessidade de mitigar? É que nós estamos a mitigar porque o CoronaVirus nos começou a matar a torto e a direito, sem apelo nem agravo, e nos obrigou, está a obrigar, a pensar quão solidários somos. Quão altruistas. Quão seguros estamos da eficácia de todas as estruturas que construímos para tornar a nossa vida tanto mais confortável quanto possível. Tão segura. Tão duradoura. Será que vamos tirar lições? Não tirámos de outras pandemias. A fome. A poluição. A guerra por dá cá aquela palha. O racismo. A xenofobia. A mendicidade. O bullying. A violência doméstica. A violação. A pedofilia. As alterações climáticas… Vamos tirar desta?

Que os deuses nos ajudem a mitigar…

  1. Aprendi esta palavra em Angola. É o plural de “cucuia” que é algo que está muito perto de morte, extinção, fracasso, malogro, redução a nada…

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