Ler Aleija

Perante tanto comentário ao extremo baixo hábito de leitura dos portugueses, fui investigar. Nada faço neste mundo sem prévia investigação porque se por um lado sou proprietário de ótimas qualidades pessoais, ser aventureiro não é uma delas. Ora, normalmente, assim tipo 98 em cada 100 vezes, eu preciso de ler para investigar. E faço-o com uma dedicação que por vezes ultrapassa a quase imbatível dedicação de mãe a filho…

No decurso da minha investigação deparei logo com algo absolutamente nada surpreendente para mim: as mulheres lêem muito mais (64%) que os homens e fazem-no com gosto. Já sabia isso, não por ter levado a cabo alguma investigação nesse sentido mas por mera observação do que me rodeia[1]. Assim como já sabia que as mulheres são mais triunfadoras nas suas vidas escolares, nomeadamente na vida universitária. Por consequência torna-se muito provável que em processos de recrutamento de quadros superiores haja muito mais mulheres do que homens. Infelizmente para elas (ou se calhar não tão infelizmente assim) essa maioria não se repercute na ocupação dos lugares chave na gestão do nosso país, onde se incluem os lugares na vida política nacional. Mas enfim, adiante! Após a confirmação sobre qual dos géneros lê mais em Portugal, continuei à procura de factos, preferencialmente novos. Novos não encontrei mas confirmei uma informação que já tinha e por isso nada de surpreendente: português lê essencialmente jornais e revistas! Mais os primeiros que os últimos mas ambos formas de literatura muito aligeirada. Minha conclusão: ler aleija! Sim, a leitura de jornais é maioritária porque português não procura profundidade nas coisas. Procura sim a leveza do ser e do estar, a notícia penugem, com claro favoritismo para o futebol (homens) e trivialidades da vida social (mulheres). É claro que as crianças se atiram aos livros infantis que, dada a qualidade do que prolifera por aí, os prepara com competência para se tornarem os futuros leitores dos jornais desportivos e das revistas de trivialidades da vida social. Eu, a avaliar pelo panorama nacional, sou um anormal porque raramente leio jornais desportivos e só ocasionalmente vou à procura de cusquice nas revistas de trivialidades da vida social…

Um outro facto, de novo nada surpreendente pois me considero um ótimo observador, é que há uma razão óbvia para levar os portugueses a preferirem a leitura de jornais desportivos e das revistas de trivialidades da vida social: o nível de literacia[2] dos portugueses é dolorosamente baixo. Citando um estudo sobre o qual passei os olhos durante a minha investigação:

… muitos adultos têm sérias dificuldades de processamento da informação escrita, que lhes diminuem a capacidade de participação na vida social, em planos como os do exercício da cidadania, das possibilidades profissionais e do acesso à cultura …

E, mais uma vez nada surpreendente, continua esse estudo:

… Portugal detém um perfil de competências de literacia preocupante, mas não surpreendente, tendo em conta os atrasos históricos no processo de escolarização …

Ou seja, o hábito real de português ler essencialmente jornais desportivos e revistas de trivialidades da vida social justifica-se pela ausência da dor enquanto lê. De facto, essas temáticas são ligeiras, prazeirosas, não exigindo interpretação nenhuma do leitor porque não passam de meras descrições de factos consumados, descrições que frequentemente não exigem dos seus escritores algum sentido crítico. A dor da leitura aparece apenas quando lemos algo que exige o esforço da interpretação por parte do nosso cérebro. Afinal, que há para entender na notícia “Cristiano Ronaldo está com COVID-19”? Nada, é um facto. Simples e atual. Ou então em “Cristina Ferreira vai dar ajuda ao programa de Ruben Rua e Helena Coelho”? Neste caso poderá não ser mais do que uma intenção da fabulástica CF, por demais idolatrada pelo povo, mas tal notícia também não exige de nós mais do que o trabalho de tentar saber quem são os ditos Ruben Rua e Helena Coelho. Enfim, se ler aleija (tanto quanto pensar) muita gente, não admira que o português use os livros para decorar estantes e ao invés de os ler se entregue total e apaixonadamente às telenovelas, aos jogos eletrónicos (telemóvel ou PC), aos SMS para os namorados e namoradas, às conversas da treta nos cafés e à violência doméstica, passatempo este que está em vias de se tornar desporto nacional. Digamos que portuga poderia ser um exímio e frequente leitor se conseguisse fazê-lo enquanto dormita…


Dormindo sob o assunto…

Eu não leio, eu estudo! Não me ofereçam novelas escritas, livros sobre viagens, prosas sobre as mais apetitosas criações dos mais famosos Chefs do planeta[3], música, cinema, sexo,… Whatever! Ler não me aleija mas não tiro nenhum prazer da leitura por isso… Não me ofereçam livros! No entanto posso passar dias a ler sobre um qualquer assunto com a intenção de adquirir conhecimentos que me permitam dominar esse assunto, total ou parcialmente. Lembro-me que li enormes calhamaços de 500 ou mais páginas quando um dia decidi tornar-me web designer. Livros caros esses, porque eram importados e por isso escritos na língua inglesa[4]. Porém o que eu fazia era estudar e para isso precisava de ler. Entendido? Acredito que não porque já tentei explicar isso a várias pessoas e realmente todos me acharam muito esquisito, para não dizer outra coisa. Mas é como é, sou todo português nesta cena, a tradicional e muito cultural cena de não ter hábitos de leitura.

O que mudará este cenário num futuro breve? A ditadura da disciplina, bem ao estilo norte da Europa. Realizável? Naaaa… Momento de delírio meu!

  1. Também já observei que a mulher domina por completo a blogosfera portuguesa. Digamos que também aqui homem se entrega preferencialmente aos prazeres da carne e não escreve. Pena é que os temas sobre os quais as mulheres se debruçam nos seus blogues não me convidem muito à sua leitura…
  2. Sou defensor da tese de que só os alfabetizados poderão ser considerados dotados ou não de literacia. Quem não sabe ler (analfabeto) não poderá ser acusado de iliteracia, portanto. A iliteracia é, a meu ver, a dificuldade de interpretação e compreensão de textos. Quanto maior é a dificuldade no acto da leitura em si, maior pode ser a iliteracia de quem lê.
  3. Assunto devorado nos dias que correm, gastronomia e culinária.
  4. Também se escreve muito pouco em Portugal mas isso são outras problemáticas…

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