Intenções Suicidas

Ontem deixei o trabalho com uma terrível vontade de me suicidar. Entrei no carro com aquela força que resulta apenas da necessidade de não ficar naquele sítio para sempre e arranquei. Arrancar é bom quando o sítio emque estamos não nos agrada. Primeira, segunda, terceira e de repente o meu cérebro iluminou-se com a luz imanada de um belo e atraente arroz de atum. É isso, pensei eu, vou chegar a casa e fazer o melhor arroz de atum do universo. Sim, porque eu faço o melhor arroz de atum do universo. E o universo, dizem, é grande p’ra caraças, é infinito…


Arroz de atum.

O atum que uso não é fresco, é de conserva. E é o resultado de todo um processo do qual não nos lembramos quando o apreciamos. Vejamos… Um dia um grupo de pescadores levantou-se de madrugada para mais uma vez irem trabalhar, como qualquer um de nós mas no caso deles para pescar. Lá foram arriscar a vida em alto mar para pescarem tantos atuns quantos a arte e engenho da pesca lhes permitem. Voltaram e entregaram o resultado da sua odisseia naquela lota borbulhenta, àquela hora da manhã, onde o industrial de conservas já está ávido de muito peixe a baixo preço. Negócio feito, faz chegar o atum à sua grande superfície industrial onde muitas Marias de cara alegre, para não serem despedidas, tratam os ditos atuns à maneira e garantem que às latinhas não chegam partes do atum impróprias para consumo. Tudo o resto, as máquinas que o industrial de conservas comprou a crédito, graças ao banco que nele acreditou, processam de modo a cumprirem as normas CE que agora (felizmente) orientam a nossa atividade industrial.

A seguir entra o intermediário na jogada, que normalmente é um tipo com ar de azeiteiro mas esperto quanto baste, ou então o menino de gravata e camisa branca, executivo de uma qualquer grande superfície que opera na área da distribuição e que quase fizeram extinguir as pequenas mercearias, para exigir a maior quantidade ao menor preço. Depois do transportador, ainda ensonado e com cheiro a tintol, conseguir entregar aquelas latas todas no tal de hipermercado, aparece a pobre da Maria que levou porrada do seu Manel na noite anterior a ter que as colocar na prateleira certa. É então que entro eu a comprar uma ou duas latas de atum em conserva, natural ou com azeite, mais em função do preço do que da marca. E finalmente vem a Maria que está na caixa não sei quantos, entre muitas outras, que normalmente é muito profissional porque recebeu formação para isso mas não sorri de todo quando ensaio uma piada de engate de terceira categoria.

Afinal não é preciso acreditar em Deus para nos mantermos vivos e felizes. Basta pensar que para um simples arroz de atum que nos anima há uma porrada de gente a contribuir para a nossa felicidade transbordante enquanto confecionamos e nos deliciamos com o melhor arroz de atum do universo. E nem sequer mencionei todo o processo de todos os ingredientes de um arroz de atum divinal. Aí, estaríamos a falar de muio mais gente boa deste mundo a fazer algo por alguém. Ok, fica sempre a grande questão “e quanto aos que não têm dinheiro para comprar essa latinha de atum ao natural ou em azeite?”. É, essa fica para um outro dia, para um outro artigo meu em momento de elevada inspiração.

Até lá, delicio-me com o melhor arroz de atum do universo…

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