EU rico, EU pobre -p2

E a luta continua! Apesar de um acordo de libertação de mais de 500 kM€, a UE não está ainda resolvida. Discute-se muito por tão pouco e por vezes com algum azedume. A UE não está bem e não é este acordo arrancado a saca-rolhas que vai alterar o estado de pouca saúde da UE. Até porque ainda se fazem apostas sobre quem segue ao UK no abandono das fileiras desta estrutura que teve um bom princípio. Mas quem lhe deu princípio era alguém com ideais que provavelmente faziam sentido naquele período ainda pós-guerra, numa Europa que tentava sobreviver ao caos que os Alemães fizeram o favor de criar no velho continente. Mas afinal qual é o problema da UE? A sua dissonância cultural…

Comecemos por ver quem são os 27 magníficos que se perfilam como unionistas (o ano indicado é o da adesão à UE):

NORTE
1 — DinamarcaDinamarca1973Schengen
2 — FinlândiaFinlândia1995Schengen
3 — SuéciaSuécia1995Schengen
CENTRO
4 — AlemanhaAlemanha1957Schengen
5 — ÁustriaÁustria1995Schengen
6 — BélgicaBélgica1957Schengen
7 — FrançaFrança1957Schengen
8 — HungriaHungria2004Schengen
9 — IrlandaIrlanda1973
10 — LuxemburgoLuxemburgo1957Schengen
11 — Países BaixosPaíses Baixos1957Schengen
LESTE
12 — CroáciaCroácia2013
13 — EslováquiaEslováquia2004Schengen
14 — EslovéniaEslovénia2004Schengen
15 — EstóniaEstónia2004Schengen
16 — LetóniaLetónia2004Schengen
17 — LituâniaLituânia2004Schengen
18 — PolóniaPolónia2004Schengen
19 — República ChecaRepública Checa2004Schengen
SUL
20 — BulgáriaBulgária2007
21 — ChipreChipre2004
22 — EspanhaEspanha1986Schengen
23 — GréciaGrécia1981Schengen
24 — ItáliaItália1957Schengen
25 — MaltaMalta2004Schengen
26 — PortugalPortugal1986Schengen
27 — RoméniaRoménia2007

Destes 27 apenas 19 formam a Zona Euro (). Isto é importante para ver que começa logo aí a divisão da união mas não tenciono de todo fazer aqui análises económicas sobre o “porque sim, porque não” de uns terem aderido à moeda única e outros não. Não o faço porque nem sequer conseguiria fazê-lo mas acima de tudo porque o que realmente me interessa é focar-me na famosa guerra norte-sul. Claro que nesta guerra fica difícil ver como se posicionam os que, não sendo nem Norte nem Sul, formam o grupo do Leste. E os que estando no Norte, a Polónia, não são lá muito bem vistos nem pelo Norte nem pelo Centro. Ou então a Roménia, claramente ao Sul mas metida ali no meio dos gajos do Leste. E finalmente a França. Essa França grande que foi ocupada, em tempos de guerras passadas, pelos vizinhos Alemães em menos de um ciclo “inspira, expira” e que, coitada, vai saltitando entre Centro e Sul, conforme as conveniências, apesar dos seus indicadores económicos bastante bons (pelo menos comparados com os nossos). De facto, existe uma guerra entre o Norte e o Sul. E essa guerra não está com aspeto de guerra que está para acabar…

Vejamos o lado económico e como em 2019 se situou Portugal no meio destes parceiros, sendo que Portugal é claramente um pobre parceiro do Sul:

  • 24º lugar na população total
  • 16º lugar no PIB anual[1]
  • 18º lugar no PIB per capita[2] (abaixo da média UE)
  • 23º lugar no IDH[3]
  • 10º lugar na dívida nacional total (M€)
  • 3º lugar na dívida proporcional ao PIB[4] (%PIB)
  • 16º lugar no déficit[5] (%PIB)

Genéricamente, analisadas estas estatísticas “a la mode” de um não-financeiro e não-político, estamos entalados. E tal como nós, estão entalados todos os países do grupo do Sul e do Leste. E é por isso que, pragmaticamente, não posso chatear-me com os Holandeses que afirmam que em vez de andarmos numa de putas e vinho-verde deveríamos era cuidar de nós próprios e da nossa sobrevivência por mote próprio. E que deveríamos criar riqueza em vez de andar a chular a riqueza dos outros. Duro, não é? É mas os gajos do Norte não brincam em serviço. Nem os do Centro mais a norte. Não brincam em serviço, ponto. Cumprem. Se existem horários para se cumprir, cumprem. Se existem regras de comportamento social para se cumprir, cumprem. Se for necessária a austeridade para resolver a sociedade, cumprem. Se for necessária a unidade nacional para se defenderem de ameaças externas, cumprem. Cumprem, pronto. Direta, rápida, eficaz e eficientemente. Cumprem! E acima de tudo prevêem, planeiam e… cumprem.

Se por um lado não me impressiona que os gajos do Norte cortem a direito que nem lâminas afiadas e isso faz deles gente feliz, por outro pareceu-me pouco oportuno o modo como, em período de elevado sofrimento dos seus parceiros, como a Itália, Espanha e até França, não moderaram as suas palavras e ações adiando-as para momentos de menor aflição e sofrimento. Mas isso é precisamente a diferença cultural que sempre se interpõem nas negociações entre os membros da UE. Eles, Norte e Centro, são frios que nem os seus climas. Nós, Sul ou quase Sul, somos esquentados que nem os nossos climas, passe o facto de que Portugal nem sequer é um país Mediterrânico.

Entendo muito bem os parceiros do Norte e Centro da Europa. Já os visitei () e tenho convivido (profissionalmente) com eles ao longo de décadas. Muito aprendi com o Norte e o Centro. Muito concordo com os seus comportamentos. Natural, em muito do que são e do que fazem estão totalmente certos e a prova é o evidente sucesso que ostentam. E são felizes. É que os latinos não acreditam que eles possam ser felizes mas… A felicidade é o que cada um sente, não o que os outros acham que se deve sentir. E a verdade é que eles conduzem, nós somos conduzidos. Eles lideram, nós somos liderados. Eles orientam, nós somos orientados. Eles chulam, nós somos chulados.

Acabou-se-me a esperança de nós, sulistas, sermos um dia gente crescida e auto-suficiente. Somos demasiado mesquinhos para sermos grandiosos. Somos demasiado pequenos para algum dia sermos grandes. E isto de pedir em vez de criar riqueza é contagiante. Pega-se que nem nicotina ou álcool. E quando viciados, todas as razões têm razão para continuarmos no vício. Na dependência. E acreditamos que quem dá estará sempre a dar. E nós sempre a receber. Até porque nos sentimos cómodos com o pensamento de que somos tão viciados a pedir como eles, os do Norte e do Centro, são viciados a dar. E acreditamos que eles vão continuar a dar e a aproveitar-se de nós tanto quanto nós vamos continuar a receber e a autovitimizar-nos por se aproveitarem da nossa necessidade de estar sempre a receber. Enfim, há muitos anos que fomos apanhados neste terrível redemoínho do “Homem rico, Homem pobre” e tudo indica que preferimos o papel de homem pobre…

Que os deuses sejam generosos até porque só existirão deuses se houver quem continue a predispor-se a deificar…

  1. É um indicador que dá uma ideia de quanto um país é capaz de produzir (bens e serviços).
  2. Tão simples quanto isto: o que cada cidadão contribui para a riqueza nacional.
  3. Indice de Desenvolvimento Humano. Resumidamente, um indicador do nível de desenvolvimento do país, ou seja, o que nos aproxima ou afasta do estado de subdesenvolvimento.
  4. Aquilo que nos faz pensar que a produzir como produzimos vamos levar infinitas vidas para pagar o que devemos. Só a It´lia (2º) e Grécia (1º) estão pior que nós.
  5. Indicador que nos dá a razão entre as despesas e as receitas. No nosso caso, são muito mais as despesas…

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