Estão Velhos, Não Prestam

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), idoso é todo e qualquer cidadão com sessenta anos de idade ou mais. Também segundo a OMS, o envelhecimento consiste numa “deterioração funcional progressiva e generalizada,” que resulta da perda de algumas “faculdades” e do aumento do risco de doenças relacionadas com as pessoas idosas. Aqui está, perda de faculdades e aumento de doenças. Quem está para aturar este ser que até é o nosso progenitor mas que está com um déficit de faculdades e um excedente de doenças?

Sou um irredutível admirador do pragmatismo. O pragmático é uma pessoa frontal, rodeios são uma perda de tempo. Por isso soou-me bem aquele cidadão que em entrevista na TV disse, curto e grosso, “Como é fácil de ver, os velhos em Portugal não prestam. Você não viu durante a pandemia? Aquilo até parecia o tiro ao velho…“. Enfim, tratando-se de uma pandemia estamos mais indefesos, sabemos que causa normalmente um elevado número de baixas nas populações por ela atingidas e, claro, os seus efeitos incidem principalmente nos seus elos mais fracos. No caso da Covid-19, o elo mais fraco foi o conjunto de cidadãos com déficit de faculdades e com excedente de doenças, ou seja, os velhotes! Neste caso admito que pouco mais se podería ter feito em sua defesa…

Quanto aos lares da 3ª idade[1] em Portugal onde os velhotes sofrem maus-tratos apesar das mensalidades exorbitantes pagas, não surpreende! A ganância é a força motriz da espécie humana. A sociedade envelhecida Portuguesa representa para muitos chico-espertos uma bela oportunidade de negócio, principalmente porque a regulamentação e a fiscalização dos negócios em Portugal é diminuta ou até inexistente. Ora, nas últimas décadas, a sociedade tem-se movido no sentido do fortalecimento do capitalismo[2] e, por consequência, na desvalorização do valor família. Daqui resultou o enfraquecimento dos laços afetivos entre os seus membros tendo-se tornado comum ver os filhos adultos com pouca ou nenhuma vontade de aturarem os seus velhos pais, preferindo então, como primeira solução, atirá-los para os tais lares para idosos onde ficam esquecidos (ou quase) e entregues à sua sorte (ou azar).


FIG – O que dão vs. O que recebem. (imagem adaptada de um original de autor desconhecido)

Nesta história de pura miserabilidade moral (maus-tratos a velhos nos lares de idosos)[3] ninguém está isento de responsabilidades. Os filhos, porque simplesmente abandonam os seus velhos pais, fundamentando a sua decisão nas “dificuldades da vida”. Os diretores dos lares porque contornam a pouca regulamentação existente conduzindo a sua gestão no sentido do lucro máximo, em deterimento da qualidade da prestação de serviços aos utentes dos lares que dirigem. Os funcionários dos lares porque “não vêem nem ouvem” os maus tratos aplicados aos velhotes. E o Estado, que continua, como sempre, a ser incompetente na regulamentação e fiscalização das atividades económicas e sociais no nosso país. Resultado? Gente velha que dedicou toda a sua vida aos seus filhos e à sua nação mas mesmo assim a não merecer deles o mínimo respeito, de modo a permitir-lhes viver a última fase da sua vida com alguma dignidade.

Que os deuses se compadeçam…

  1. Assumindo as divisões da vida do Homem: 1-infância, 2-maturidade e 3-velhice.
  2. Cada vez mais liberal e menos social.
  3. Tem havido outras, como por exemplo aqueles casos em que idosos viviam sozinhos e apareciam mortos nas suas casas.

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