Espíritos Temperamentais

Percebemos que algo não está bem na nossa vida quando algo não está bem na nossa vida? Sim, mas será que compreendemos que algo não está bem na nossa vida quando algo não está bem na nossa vida? Nem sempre. Perceber é algo automático que nos é permitido pelos nossos sentidos. Compreender exige um esforço cerebral pleno de consciência afim de alcançarmos algo com inteligência, algo que nos permita agir no sentido de conseguir que algo que não está bem na nossa vida passe a estar bem ou deixe de constituir uma perturbação.

Foi em 2012, Outubro 8, que fiz uma incursão ao mundo da espiritualidade sem alma no artigo que pode ler aqui, versão inglesa. As pessoas em geral misturam conceitos despreocupadamente e por isso muito poucos de nós se preocupam em estabelecer contornos claros e diferenciados nas palavras espírito e alma. Para o cidadão comum, usamos ambas indiferenciadamente mas a mais gasta é sem dúvida a alma. Só poderia ser assim, dada a carga substancial da componente religiosa das nossas vidas. Alma ou espírito, estes tempos que correm, de uma pandemia ainda descontrolada, estão abalando uma e outro. Muitos de nós são espíritos inquietos e às vezes almas perdidas. Muitos de nós olham em frente com severa intensidade, em busca daquela luz ao fundo do túnel. Mas a luz não se vê porque o fundo do túnel ainda está lá bem longe. Longe demais, tanto quanto a nossa condição de humanos a faz estar. E o stress acumula-se. E a ansiedade amplia-se. E ansiedade mata…

Não estamos a aprender nada de nada com esta pandemia. Muita frustração invade aqueles espíritos que, no início desta tremenda crise social e económica, afirmaram ser esta a oportunidade da reformulação. Naaaa… Enganaram-se! Para reformularmos precisamos primeiro de ter embuído em nós algum espírito matemático e a maior parte dos transeúntes desta vida não o tem. Vivemos ao ritmo de ritmos que na maior parte das vezes nem sabemos donde vêm ou, se sabemos, desconhecemos se a nós são destinados. Sendo assim, muitos de nós articulam-se ao ritmo de ritmos que não nos são destinados porque estamos demasiado ocupados a exibir aquilo que normalmente não somos. Assim, nem sequer nos permitimos a nós mesmos ter tempo para adotar uma atitude crítica. E sem atitude crítica não há triagem. E sem triagem somos alvos de qualquer coisa que se dirija a nós…

calimero

Esta pandemia tem este terrível dom de colocar a descoberto a pobreza de espírito que em geral nos carateriza. E não só a de espírito porque a material é mais que óbvia e alastrando-se tanto ou mais que o Coronavírus. Estamos a ser esmagados por este arrogante ser em que nos convertemos e agora posto a nú apenas por um insignificante bichinho que ainda nem sabemos donde veio[1], quando veio e se algum dia se vai. Somos inundados diariamente pela ignorância de quem lidera e sabe tão pouco quanto nós, pela incerteza, pela dúvida e consequente insegurança. Chocámos de frente com anos de petulância sustentada em riqueza que nós não criámos e que ainda por cima nem soubemos converter em mais valias. Somos pobres e por isso dependentes mas curiosamente não deixamos de ser petulantes. Vaidosos. Senhores de um orgulho tão egocêntrico que em nada tem contribuído para o engrandecimento desta pequena nação que é Portugal. Esta pandemia tem este terrível dom de colocar a descoberto as nossas fragilidades. As nossas dependências que de tão grandes se convertem em subserviências a terceiros…

Pior que experimentar a dor da dificuldade é saber ou pensar que sabemos que nenhum analgésico está à vista. E à dor da dificuldade junta-se a dor da incerteza. E à dor da incerteza junta-se a dor da insegurança. E com tanta dor sem fim à vista optamos por nos tornarmos agressivos, violentos, cruéis? Oscilamos entre a resignação e a impensada agressividade dirigida a quem julgamos serem os culpados da nossa dor. Isso, porque sempre são os outros os culpados da nossa dor. E por isso sentimo-nos agredidos. E animal agredido torna-se ou quer à viva força tornar-se agressor. E então agredimos. Agredimos tudo. Agredimos todos. Procuramos a descompressão através da agressão. Atingimos os próximos, os menos próximos e os próximos dos próximos em série infinita. E estamos tão ocupados com tanta agressão que só por acaso, um dia, reparamos que o nosso pequeno mundo está em modo auto-destruição. Em risco de extinção. E é nesse dia que passamos a ser candidatos a sermos tidos como loucos. E porque um louco é um ser normal que perdeu o auto-controlo num mundo em que muitos de nós já perdemos o auto-controlo, seremos mais um espírito oscilando entre a resignação e a impensada agressividade dirigida a quem julgamos ser os causadores da nossa loucura.

As redes sociais são, nos tempos que correm, o terreno propício ao arremeso da nossa agressividade, a salvo de possíveis identificações que nos possam comprometer. Se não nos identificam, não nos acusam. Se não nos acusam, não nos penalizam. Criar um perfil falso e começar a insultar, a injuriar e a ofender tudo e todos é hoje uma moda tão instituída como os reality shows que passam na nossa TV. Criar um perfil não-falso em que aparecemos vestidos de heróis nacionais em defesa de pessoas e causas frágeis é hoje uma moda tão cool, tão brutal[2] como as bem sucedidas cristinas ferreiras[3] deste país. Ainda sou do tempo em que se dizia que os portugueses eram um povo de brandos costumes. Isso, ainda sou do tempo em que se dizia muita parvoíce. Tanta como a que se diz hoje, afinal. A grande diferença é que hoje diz-se muita coisa com a intenção de soar que nem música aos ouvidos de muitos que, esperamos, se juntem a nós na partilha desta vontade indomável de nos sentirmos vedetas, especiais, únicos, eleitos dotados da autoridade divina de amar e odiar quem muito bem nos apetece, da forma que muito bem nos apetece.

Que os deuses nos protejam de nós mesmos…

In English

Rows of houses, all bearing down on me.
I can feel their blue hands touching me.
All these things into position,
All these things we’ll one day swallow whole
And fade out again and fade out.

This machine will, will not communicate
These thoughts and the strain I am under.
Be a world child, form a circle
Before we all go under
And fade out again and fade out again.

Cracked eggs, dead birds
Scream as they fight for life.
I can feel death, can see its beady eyes.
All these things into position,
All these things we’ll one day swallow whole
And fade out again and fade out again.

Immerse your soul in love.
Immerse your soul in love.
Em Português

Filas de casas, todas caindo sobre mim
Posso sentir as suas mãos azuis me tocando
Todas essas coisas posicionando-se
Todas essas coisas que um dia vamos engolir completamente
E de novo se desvanecerem, se desvanecerem.

Esta máquina não vai, não vai comunicar
Estes pensamentos e a tensão que me esmagam
Sê uma criança do mundo, forma um círculo
Antes de todos irmos abaixo
E de novo nos desvanecermos, de novo nos desvanecermos.

Ovos quebrados, pássaros mortos
Gritam como se lutassem pela vida
Posso sentir a morte, posso ver o seu olhar radiante
Todas essas coisas posicionando-se
Todas essas coisas que um dia vamos engolir
E de novo se desvanecerem, se desvanecerem.

Afunda a tua alma em amor.
Afunda a tua alma em amor.
Interpretado por Radiohead
Street Spirit (Fade Out), in The Bends, © 1995
Legendado em Português por Zé Barbosa.
Foto original de Zé Barbosa (Vila Nova da Cerveira, Portugal).
  1. Da China, com certeza.
  2. Oh como eu detesto o uso desta palavra pela juventude “à rasca” de hoje…
  3. Empreendedora bem sucedida no mundo da TV, Cristina Ferreira de repente virou virgem ofendida e resolveu testar a sua popularidade apelando a todos que adiram à sua luta contra a utilização das redes sociais como arma ofensiva e injuriante.

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