Cruzando a 64ª Constelação…

As pessoas valem pelo que fazem ou têm, não pelo que são. Esta é uma verdade aprendida algures nas nossas vidas quando o nosso cérebro já é capaz de entender a diferença entre o “ser” e o “ter”. No entanto, isso não acontece com todos porque nem todos conseguem atingir aquele estado de sabedoria que lhes permite considerarem-se sábios ou serem considerados por outros como tal.

Envelhecer é algo que não acontece àqueles animais humanos que falecem nos primeiros anos de suas vidas (Jacques de la Palice não diria melhor). Se esses por um lado têm a vantagem de não vivenciar as agrezas decorrentes do envelhecimento, por outro também não terão a vantagem e o prazer de poder olhar a realidade com alguma sensatez, sagacidade ou discernimento. Dito de outra maneira, envelhecer por si só é uma coisa trivial, envelhecer com classe é uma arte. Quando falamos em envelhecimento, falamos das várias fases da vida até chegarmos a velhos. No que me diz respeito, fui uma criança “low profile”, ao que se seguiu uma adolescência “low-profile” que antecedeu uma puberdade um pouco menos “low-profile”. Quando falamos em envelhecimento, falamos numa juventude que já passou e que já não volta, durante a qual eramos dotados de muita energia mas com pouca capacidade para a gerir. Por outro lado, falamos na fase final das nossas vidas em que já adquirimos muita sabedoria mas com muito pouca energia para usá-la…

Cruzar a 64ª constelação é fazer de 2023 (tanto quanto o último trimestre de 2022) dos tempos de maior tranquilidade, mas não necessariamente dos mais fáceis, da minha vida de animal humano. Agora estou capaz de validar, para meu inexorável contentamento, um monte de teorias que formulei ao longo dos anos. Não vou dizer que quanto mais conheço os humanos mais gosto dos animais porque acho essa frase execrável, tanto quanto a prática da mesma. Mas continuo a ver o animal humano como coisa estranho-esquisita que vagueia por aí ao sabor das correntes de ar. No fundo, cada um de nós não passa de um vagabundo, no que a palavra tem de mais significativo no contexto do palavrão. Vendemo-nos por muito pouco, apesar de estarmos convencidos de que o muito pouco é muito. Somos uma merda, porque a merda acontece. Mas também somos merda porque merda gera merda tanto quanto violência gera violência e quem com ferros mata com ferros morre. Esta é a nossa vida, a vida de coisas que se apresentam como seres inteligentes no topo da cadeia alimentar. E na vida, há verdades dolorosas que aprendemos e com as quais convivemos mas que ganham uma dimensão maior quando indubitavelmente, por nós mesmos ou por outros, são confirmadas. Como me disse um amigo meu, um dia algures num passado longínquo, “é tão triste ver como somos tão pouco considerados quando não temos dinheiro nem poder”. Engraçado! Ele já sabia disso, há muitos anos, mas ainda assim sentia-o intensamente quando alguém lhe atribuía menos importância do que atribuiria a um gato[1].

Lições de vida é algo que não quero dar. Lições de vida é algo que não tenho mais paciência para receber. O que fazer nestes casos? Apenas me deixo ir, apenas me deixo ir[2]… A virtude da senescência é exatamente esta: simplesmente mandamos para as cucuias[3] muitas das coisas que sobrevalorizavamos quando éramos jovens. Tem hora que nós, os velhos, nos arvoramos pelo direito de entrar em blackout e menosprezar, ou até desprezar, aquelas coisas que apenas contribuem para saturar a nossa saturação. Tem hora que nós, os velhos, sabemos, ou melhor, temos a certeza de que nenhuma das burradas que fizemos quando éramos jovens foi perda de tempo, porque sem elas não iríamos alcançar o estado supremo de bem-estar espiritual. Tem hora que nós, os velhos, finalmente entendemos que não faz nenhum sentido tentar colocar razoabilidade em mentes que não foram concebidas para lidar com a razão. Tem hora que nós, os velhos, chegamos à conclusão de que o tempo gasto para dar tempo ao tempo é perda de tempo porque, na verdade, nem sempre o tempo cura os males. Tem hora que nós, os velhos, sabemos que as lições de vida são muito importantes principalmente entre o quinto e o último copo de scotch[4]. Exatamente naquele ponto pouco antes do… blackout!

De todos os artigos que publiquei aqui, há alguns que ainda me perturbam considerando a obra-prima filosófica que são. Um deles é o Disfunção Social (clique aqui para ler). Como eu estava inspirado quando o escrevi. Sinto que tenho muito a dizer ao mundo e o que tenho a dizer é lindo. O lado negro disto reside no facto de que o mundo está completamente borrifando-se para o que tenho a dizer-lhe. Sendo assim, digo a mim mesmo o que tenho a dizer e escrevo para mim mesmo. Provavelmente sofro mais de solidão do que de isolamento, quiçá! Sendo assim, arrisco-me a precisar de alguma atenção especializada muito em breve, caso contrário posso tornar-me um homem incuravelmente solitário. Estou em crer que para algumas pessoas, provavelmente a maioria, a solidão é uma doença. Para outras pessoas, uma feliz minoria, a solidão é a forma de viver que elas concebem como a única que lhes traz a plenitude da felicidade. Tenho a certeza que não sou um desses. Tanto como tenho a certeza que vou escapar à morte…

Ao cruzar a 64ª constelação, estou a ser invadido por um sentimento de nostalgia em relação a partes da minha vida que muito apreciei e que agora não passam apenas de bons momentos de um passado que foi o possível. Nessa base, tenho revisitado canções daquela época de bom Rock como “School” (1974) dos Supertramp, “Soon” (1974) dos Yes e “Carpet Crawlers” (1975) dos Genesis. Sim, eu era um menino do Rock Progressivo, fã incondicional da banda nº1 de todos os tempos, Pink Floyd! De facto, eu era um adolescente sem graça, muito perdido ainda no meio de tantos medos que fui acumulando ao longo da minha titubeante infância. Estes três temas de rock dos anos 70 foram alguns dos mais impactantes que já ouvi na minha vida. Eles representam os anos 70, que foi uma década de uma produção musical tremendamente soberba, a maior parte originada na Inglaterra. Mas também foi a época da procura ao estado psicadélico da malta de então, que se tornava assim de repente como que filósofos do seu bairro, propondo saídas para a estrada da felicidade. Ouvir estes temas é, para mim, revisitar a minha juventude, então num contexto de vida em que os miúdos a partir dos 10 anos eram muito pressionados a crescer depressa. Ouvir estes temas é, para mim, ouvir o som do crescimento o qual é, nem mais nem menos, o som produzido pela metamorfose do corpo e da mente na vida do animal humano. Ouvir estes temas é uma ótima forma de compreender uma juventude muito orientada para uma filosofia de vida muitas vezes obtusa, intrincada, insurgente e cheia de emoção. Está com dúvidas? Elas desaparecerão logo após, ou mesmo durante, a leitura da letra do tema Carpet Crawlers[5] que eu traduzi para português sem perceber minimamente o que Peter Gabriel[6] estava a querer dizer…

Muitas pessoas sofrem, na meia-idade, de um desejo tremendo de dar uma volta de 180 graus em suas vidas. Há outros querendo uma volta de 360 graus. Este último caso é aceitável, apenas pelo prazer da viagem porque limitamo-nos a dar uma volta para regressar à origem. O primeiro é um grande desafio e toda a minha admiração vai para aqueles que são corajosos o suficiente para fazê-lo. Para alguns, é a libertação total. Para outros, é a morte na praia, que é frustrante mas que em alguns casos também pode ser gloriosa. A monotonia, o tédio ou a rotina mata, devagar, mas com eficácia. Oh, como eu odiava os lambe-cus, os bajuladores, os aduladores, os lambe-botas, os lacaios, os seguidistas, os yes-men (ou yes-women), os graxistas[7], os puxa-saco[8], os rastejantes… E foi então que a dada altura dei a minha volta de 180 graus. E muita coisa aconteceu. E de tudo o que aconteceu, bom, menos bom ou mau, resultou o que sou hoje. Um velho assumido que detesta a frase “velhos são os trapos” porque simplesmente velhos são os seres que envelhecem. Ponto! É o meu lado pragmático no seu clímax, lado esse para o qual durmo melhor…

Que os deuses estejam com eu e comigo…

Tema Musical: “Carpet Crawlers” de Genesis in “The Lamb Lies Down On Broadway” © 1974
Vídeo-clip: oficial dos Genesis, com legendas em português por zebarbosaf
Imagem Frontal: uma cortesia de Shade PL.

  1. Até porque nos tempos que correm, vida de gato é luxo…
  2. “Let it be, let it be” seria uma expressão apropriada também.
  3. Ir para a Cucuia” significa morrer, falecer, falhar, malograr-se. Aprendi esta expressão em Angola mas parece que Brasil é a sua origem.
  4. Whisky escocês.
  5. Legendas do vídeo aqui abaixo.
  6. Estou em crer que foi o autor da letra.
  7. Tenho dúvidas se este termo teve origem no Brasil ou em Portugal. Digamos que é uma variante de “engraxador”.
  8. Brasil.

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