Bora Lá às Urnas

Mais cedo do que seria de esperar, pois as últimas eleições legislativas em Portugal foram em 2019 para uma duração de legislatura de 4 anos (2023), lá vamos nós de novo dizer de nossa justiça na seleção dos nossos representantes políticos para os próximos 4 anos. Ou 3… Ou 2… Ou talvez menos…

É assim mesmo, talvez seja a nossa costela latina a querer tornar-se solidária com a costela latina dos italianos que vivem há um longuíssimo período a mudar de governo (perto de 70 governos nos últimos 75 anos) ou então não será solidariedade nenhuma mas, ao invés[1], talvez seja o nosso espírito competitivo a vir ao de cima uma vez que já somamos a módica quantidade de 28 governos em 48 anos (desde 1974 e até à data, contando com os provisórios)! É pena que o nosso espírito competitivo só lateje para estas cenas de valor menor e esteja adormecido no que refere às cenas de valor maior como o salário médio dos trabalhadores, as precárias condições de trabalho de muitos de nós, o serviço nacional de saúde e a qualidade do ensino em geral. Mas não nos desviemos! Cá estamos nós de novo prontos para ir “botar o papelinho” nas urnas e beber umas “bejekas” na longa noite de 30 de Janeiro próximo, enquanto aguardamos para saber quem irá “governar” nos próximos tempos os milhões que mendigámos à União Europeia, seja lá qual a for a duração desses tempos…

Desta vez vamos ter em concurso ao nosso voto, nada mais nada menos do que 20 organizações políticas. Isso mesmo, vinte! Entre partidos, não partidos e partidos-mas-não-muito, teremos vinte organizações a disputar a simpatia dos 10,821,244 eleitores inscritos. Bom, de facto estarão a disputar o voto de, digamos, cerca de 5 milhões e meio de votantes, se contarmos com a tradicional abstenção a rondar os 50%[2]. Ou seja, portuga gosta de jogar em grande apesar de não ter muito poder de compra para isso. Portuga gosta mesmo de tudo “à grande e à francesa”[3] e isso não se vê só no número de partidos concorrentes, vê-se na quantidade de secções em que o território português está geo-politicamente dividido (freguesias, concelhos e distritos), na quantidade de funcionários públicos, na quantidade de ministros e ministros-adjuntos, secretários e secretários-adjuntos de estado e, claro, na quantidade de deputados (230) que sentarão o real traseiro na Assembleia da República. Ou seja, como diz o povo na sua empírica sapiência “o que eles todos querem é ir para lá mamar e o Zé aqui a vergar“…

Não ouso levar a efeito qualquer análise política a cada um dos concorrentes nestas eleições. Se há coisa que não falta neste país são analistas políticos que, em verdade, em verdade vos digo, são tantos ou mais que os treinadores de bancada. Limito-me a listá-los aqui embora diga já que nem todos concorrem em todos os círculos eleitorais (22):

  1. Livre (L)
  2. Partido da Terra (MPT)
  3. Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP)
  4. Reagir Incluir Reciclar (RIR)
  5. Bloco de Esquerda (BE)
  6. Nós, Cidadãos! (NC)
  7. Ergue-te (E)
  8. Aliança (A)
  9. Alternativa Democrática Nacional (ADN)
  10. CDU – Coligação Democrática Unitária (PCP-PEV)
  11. Partido Social Democrata (PPD/PSD)
  12. Partido Socialista (PS)
  13. Juntos pelo Povo (JPP)
  14. Pessoas-Animais-Natureza (PAN)
  15. Iniciativa Liberal (IL)
  16. Partido Trabalhista Português (PTP)
  17. Volt Portugal (VP)
  18. CDS – Partido Popular (CDS/PP)
  19. Movimento Alternativa Socialista (MAS)
  20. Chega (CH)

A ordem atribuída nesta lista é a que corresponde à ordem em que estão listados os partidos no círculo eleitoral de Lisboa, a senhora capital do nosso país, e não será necessariamente a mesma em cada círculo eleitoral. Destes 20 partidos/movimentos apenas 9 têm atualmente assento parlamentar e, claro, almejam lá manter-se ou até aumentar a sua representação no hemiciclo para assim aumentarem a sua influência nas grandes decisões deste país. Os restantes onze dividem-se entre organizações minimamente interessantes e organizações caricatas mas democracia é isto mesmo, todos temos voto na matéria e todos temos aquela maniazinha que a nossa verdade é que é, a dos outros é que nem roupa contrafeita!

Em Portugal, tal como em outros países da Europa, os partidos dominantes concentram-se no chamado “centro” da ação política mas tem-se notado, cá como lá, um crescimento procupante da extrema-direita. Na minha humilde opinião não existe efetivamente extrema-esquerda em Portugal[4] mas existe a extrema-direita que na nossa terrinha é representada pelo partido CHEGA. Este, embora sendo um partido-de-um-homem-só[5], tem crescido e espera continuar a crescer ao ponto de poder influenciar a governabilidade do nosso país. “Historicamente utilizada para descrever as experiências do fascismo e do nazifascismo, hoje a política de extrema-direita inclui o neofascismo, o neonazismo, a Terceira Posição, a direita alternativa, a supremacia branca, o nacionalismo branco e outras ideologias ou organizações que apresentam aspectos de visões ultranacionalistas, chauvinistas, xenófobas, teocráticas, racistas, homofóbicas, transfóbicas, ou reacionárias. A política de extrema-direita pode levar à opressão, violência política, assimilação forçada, limpeza étnica e mesmo genocídio contra grupos de pessoas com base na sua suposta inferioridade, ou na sua percepção de ameaça ao grupo étnico nativo, nação, estado, religião nacional, cultura dominante, ou instituições sociais tradicionais ultraconservadoras.[6]“.

O que vai resultar do nosso voto no dia 30 de Janeiro? Não faço ideia porque, repito, não sou analista político (nem especialista em estatística eleitoral) mas gostaria que resultasse em algo que destruísse esta minha já entranhada convicção de que o povo português perdeu o rumo em 4 de agosto de 1578 e que, desde então, se limita a crer no regresso, numa manhã de nevoeiro, de um alguém que venha para salvar a Nação…

   Saiba mais sobre as Legislativas 2022 (CNE)

  

  1. Expressão gira embora eu raramente use.
  2. Em 2019 foi de 51.43%.
  3. Significa “abundantemente”, “com pompa”. Esta expressão popular é utilizada em Portugal desde a primeira invasão francesa, em 1807, devido ao modo luxuoso como vivia o general francês Junot e os seus oficiais em Lisboa.
  4. O Bloco de Esquerda (BE) não passa de uma versão “light” e adoçicada do que realmente é a extrema-esquerda.
  5. Obteve 1.29% dos votos em 2019.
  6. Texto transcrito de um artigo na Wikipedia.

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