Aqua

Nos tempos que correm, o Homem perde-se entre a leviandade do imediato e a profundidade do que parece já não ter a vontade de entender. O imediato predomina, a forma, o aspeto, a impressão com retorno a curto prazo. Para já-já, não é vou-já é agora, de imediato-já-devia-ter-sido-ontem, não vá o mundo acabar amanhã de manhã antes do sol nascer…

A 76ª sessão da Assembleia Geral da ONU está em curso. Subordinada ao tema “Construindo resiliência por meio da esperança – para se recuperar da Covid-19, reconstruir de forma sustentável, responder às necessidades do planeta, respeitar os direitos das pessoas e revitalizar as Nações Unidas“, aí está mais um blá-blá-blá ao mais alto nível para continuarmos a acreditar que iremos, ou alguém irá, um dia fazer algo por nós, talvez no monumental e muito tuga dia de São-Nunca à tarde. E até está lá Jair Bolsonaro, essa vedeta da inofensiva gripezinha que matou centenas de milhar de descendentes dos índios das terras do pau preto, até porque o que o povo precisa mesmo é de trabalhar, muito e mal pago, pois alguém tem que manter a produção de arroz, macarrão e feijão, essa mistura predileta do povo das favelas turísticas que enfeitam o Brasil do samba, do futebol e dos ressorts turísticos que parecem ser a única parte do Brasil que os tugas, em geral, conhecem.

Poderia meter aqui também as eleições na Alemanha no próximo domingo, para vermos quem sucederá à dama d’aço temperado, Angela Merkel, mas dos alemães não podemos esperar grandes novidades pois se há povo que é monotonamente sempre igual a si próprio é o povo alemão. Enfim, a Terra vai aquecendo e os humanos também. As emoções imperam cada vez mais, o que parece ser é, há muito, mais relevante do que aquilo que efetivamente é, estamos muito felizes com nós mesmos na luta pelas verdades absolutas que cada um de nós julga deter. O número de influencers cresce a um ritmo superior ao dos cogumelos selvagens por essas florestas do mundo e pronto, uma de idiotas aqui, outra de revolucionários ali e outra de bons-samaritanos ao domingo de manhã, à hora da liturgia mais concorrida da semana e cá estamos, plenos do “eu é que sei, eu é que sei” e meia-bola em força…

Kitaro é um pequeno génio de um género músical que mais me tem aprazido nos tempos que correm e nos que já correram durante décadas, New Age. Um tributo à água, um produto que nós fazemos questão de inquinar tanto quanto podemos em cada uma das nossas intermináveis fugas para a frente. Enquanto o animal humano se mantiver convencido que um dia alguém há-de limpar a merda que faz, iremos precisar de muitas mais conferências mundiais sobre reconstruir de forma sustentável, responder às necessidades do planeta, respeitar os direitos das pessoas e revitalizar as Nações Unidas. Até porque as nações de unidas nem têm muito e cada vez se respeitam menos os direitos das pessoas. Mas enquanto mostrarmos intenções de mudar algo, permanecemos felizes com nós mesmos…

Porque nós continuamos a fazer questão de meter água…

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