Aos 365 Dias Em Degredo

Foi em 16 de março de 2020 que foi anunciada a primeira morte em Portugal por infeção do Corona Virus. Homem de 80 anos com outras patologias associadas, publicou-se! A 18 de março de 2020 foi decretado o estado de emergência em Portugal, através do Decreto do Presidente da República n.º 14-A/2020, de 18 de março. E assim começou mais um drama de um povo que vai somando dramas ao longo da sua história, e assim se viu o povo lusitano forçado ao degredo em suas próprias casas…

Quando começámos a ouvir algo sobre o CoronaVirus, o bicho estava ainda muito longe, na China. Muito poucos de nós imaginavamos que ele viajaria rápido para todo o mundo, incluindo claro este pequeno país onde parece que nunca nada de interessante acontece e onde se vive neste habitual espírito lusitano, o espírito de quem vai vivendo a sua vida na base d’um dia de cada vez, sem reflexões profundas e incondicionalmente crentes na máxima latina “carpe diem quam minimum credula postero[1]. Bom, o facto é que em muito pouco tempo constatámos que mais uma vez estavamos errados. O vírus que matava uns chineses lá ao longe, o que dava azo a gracejos do tipo “não faz mal, eles são mais que as mães”, chegou rapidamente à nossa porta, não bateu sequer e até entrou sem pedir licença. E assim fomos caindo que nem tordos, principalmente os velhotes, que há muitos anos em Portugal já são tratados como matéria dispensável. Claro, não estavamos preparados para esta agressão mas, pergunta-se, estamos nós portugueses alguma vez preparados para alguma coisa?

Há uma frase, eventualmente pouco simpática para os dotados de elevados níveis de pruridos sociais e religosos, que diz algo como “pimenta no cu dos outros é refresco”[2]. Quando o CoronaVirus, que inicialmente matava apenas uns chinocas, passou a matar os nossos pais e os nossos avós, aí sim, a coisa começou a doer. Mas quando a coisa virou pandemia e de repente só podíamos sair de casa com uma justificação válida, a coisa virou drama ou tragédia até. É que de repente o povo começou a não conseguir disfarçar mais as suas fragilidades e limitações, de índole diversa, pois o CoronaVírus teve também esse macabro condão, o de revelar aquilo que constantemente nos esforçamos por esconder. Este vírus, transformado rapidamente em pandemia, deveria por isso estar a dar uma grande lição a todo o mundo. Mas não está! Não estamos por exemplo a aprender que para evitarmos o caos não precisamos de viver sob jugos totalitários como o chinês, cujo povo pede autorização para respirar, mas apenas precisamos de um mínimo de disciplina pessoal (auto-disciplina) sobre a qual se alicerça a disciplina de grupo, ou seja a nacional. Neste pequeno país de constantes dramas pessoais e nacionais, continua a viver-se na base do velho provérbio que diz que todos ralham e não têm razão em casa onde há ou não há pão…[3]. Em suma, o que portuga efetivamente gosta mesmo é de ralhar e de atirar postas de pescada para quem as possa ou queira apanhar…

O povo não está preparado para estar fechado em casa mais tempo do que o necessário para cumprir as suas refeições diárias (e nem todas) e o seu retemperador sono. Tudo o que passa disso vira história de faca e alguidar. A faca para cortar as goelas ao conjuge ou aos filhos e o alguidar para aparar o sangue e assim não manchar o tapete persa comprado em suaves prestações. Em condições normais, o povo é todo muito feliz e muito bem casado, adora os filhos mais que tudo, a família é tudo e mais alguma coisa mas… só se o tempo de interação familiar não ultrapassar as 3 ou 4 horas diárias. Mais tempo do que isso e cada defeito de quem coabita com o condenado a confinamento forçado transforma-se em hedionda pústula, mesmo ali no topo do nariz a crescer desmesuradamente a cada minuto que passa e que a partir de certo momento passa a ser a única coisa visível no próximo, o qual já não apetece muito amar. O ser humano é um animal social mas com episódios de socialização e de amor ao próximo de curta duração. Não surpreende portanto que a epidémica insanidade mental em Portugal se vá agravando por cada dia de confinamento que passa. Por cada hora ou minuto até, dependendo do nível de paciência e tolerância do animal humano de que estivermos a falar…

Não interessa comparar o que fomos e somos nesta pandemia com o que outros foram ou são noutros países. O que interessa é que Portugal sofre e isto é só o ínicio de mais um episódio de uma telenovela que já se iniciou há muitas décadas. O desemprego, a fome, a vergonha, a tristeza, a depressão e outras manifestações de decadência serão piores quando se descobrir que a “bazuca” ou “vitamina” a vir da Europa dos 27, não irá resolver o problema de base, o problema estrutural de um povo que de facto é voluntarioso, é lutador, é resiliente mas que nunca se deu ao esforço de aprender a lutar. E das lutas tirar vitórias. E das vitórias tirar ilações. E das ilações criar lições. E com as lições fortalecer toda uma nação para que deixe de uma vez por todas de se arrastar de mão estendida pela Europa dos ricos enquanto conta longas e elaboradas histórinhas do ceguinho.

Neste longo período de um ano que, para muita gente, mais parece uma década, houve de tudo um pouco. Rocambolescas histórias dos ditos “Médicos Pela Verdade”, greves de quase-fome de famosos “Chefs” criadores de cozinhas infernais, surtos infecciosos em lares de idosos que “ninguem sabia” que são ilegais, festas públicas e privadas clandestinas, cidades deprimentemente vazias durante a semana e praias repletas ao fim-de-semana, veículos de transporte de vacinas bloqueados por forças policiais em profunda descoordenação, corrida ao estatuto de pessoa prioritária no processo de vacinação e, acima de tudo, o passarmos no contexto da pandemia mundial de país exemplar a pior país do mundo em menos de um piscar de olhos. De facto, o que se pode notar com facilidade em nós, povo lusitano, é a nossa crónica falta de unidade nacional que nos tem feito arrastar ao longo da história em ritmo de flip-flops contínuos, com muito mais flops que flips. Porque os portugueses improvisam e definitivamemnte não sabem planear, caímos novamente no caos, o ambiente mais propício ao aparecimento dos malabaristas das soluções, dos vendedores da banha da cobra, dos arautos da desgraça e suas poções mágicas de salvação, dos pregadores das verdades absolutas e, claro, dos caniches com latir de pastor alemão. Por outro lado, tem sido reconfortante comprovar que muitos dos nossos profissionais de saúde optaram por essa atividade profissional com base em verdadeira vocação, que continua a haver neste cantinho, bem no fim da Europa, uma mole de praticantes da solidariedade silenciosa pela qual se ajuda apenas pelo singelo prazer de ajudar, sem holofotes nem megafones, e que temos governantes, aos quais também dirijo a minha vénia oriental[4], dotados da coragem de se manterem nos seus postos de comando nesta guerra contra um desconhecido inimigo que a todos neste planeta surpreendeu.

E pronto, neste aniversário que não apetece celebrar, percebemos já que 2021 não apagará 2020, que não estaremos forçosamente melhor em 2022 e que será bom não perder os próximos capítulos desta longa odisseia trágico-marítima pois tal significará que por cá nos mantemos e ainda estamos dotados da capacidade de perceber…

  1. Literalmente, “aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã”.
  2. De facto há bastantes variantes desta frase para o mesmo conceito: expressa que o interlocutor ou pessoa contextualizada está pouco se importando com o sofrimento alheio, mas ficará ultrajada se fizerem o mesmo com ela.
  3. Tomei a liberdade de fazer uma pequena adaptação…
  4. O meu cumprimento preferido, um singelo mas significativo baixar de cabeça.

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