A Cruel Acutilância Da Verdade

Afirmar que a derrota por cinco do FC Porto contra o Liverpool FC (ou a do Sporting CP contra o AFC Ajax) é um escarro no focinho do futebol português, deve muito provavelmente doer bastante! Afirmar que essas mesmas derrotas são uma vergonha para o futebol português, continua a doer embora a dor possa ser algo menos intensa. Afirmar que essas derrotas são exageradas mas que se compreendem dado o efeito de ano e meio de pandemia sobre os jogadores e treinadores, bom… A coisa já é capaz de encaixar bem nas carolas de putas sofrendo de ultra-sensibilidade nos ouvidos e dotadas de língua bifurcada, caraterística comum a muitos animais humanos!

A verdade, nua e crua, magoa! Fere. Faz estremecer a existência dos humanos que ao longo dos milénios se têm transformado em seres estranhos, tipo humanóides, habitualmente sofrendo de ultra-sensibilidade nos ouvidos e de ultra-acidez na língua. Em geral, nos tempos que correm, as pessoas não querem ouvir a verdade mas curiosamente detestam que se lhes minta. Principalmente as mulheres (ou as pessoas femininas, para ouvidos mais sensívei)! Sim, a mulher estremece violentamente ao ouvir a verdade mas também é a que afirma amiúde detestar a mentira. Por exemplo, a mulher de hoje sente que corre o risco de passar a ser vítima da mentira vinda do homem que vê, mais do que nunca, como um elemento agressor da sua existência. Em geral, as pessoas (masculinas e femininas) não estão preparadas para ouvir a verdade, nua e crua, sobre seja o que for. Por exemplo, se alguém diz uma verdade que descompõe o outro, este sente-se melindrado e ofendido. Se, pelo contrário, alguém diz uma verdade muito pomposa ou prazeirosa sobre o outro, este sente-se desconfiado e uma provável vítima de um qualquer embuste…

Assumo ser um acérrimo praticante da verdade, tanto quanto assumo que já aprendi, há muitos anos, que não existe uma verdade. Cada animal humano tem as suas várias verdades e nelas acreditam piamente. Claro que ao vivermos em matilha vamos tornando as nossas verdades a verdade da matilha mas… matilhas há muitas! Se para além de sermos acérrimos defensores da verdade ainda por cima a apresentamos nua e crua, passaremos automaticamente a fortes candidatos a persona non grata. Assim mesmo, o arauto da verdade de estilo frontal não tem com certeza muitos amigos. Depois, depende de cada um decidir sobre o que é mais importante na sua vida: ser um arauto da verdade nua e crua e sem amigos ou dourar a pílula q.b. e estar rodeado de “amigos”. Assim mesmo, a palavra amigos aqui está entre aspas porque se refere aos amigos tipo Facebook que muitas vezes nem sequer conhecemos…

A verdade é aquela coisa que muitos nem se preocupam em conhecer mas que muitos querem usar. Manusear. Manipular. Moldar. Formatar. Não surpreende por isso que o social-democrata Carlos Moedas tenha vencido as eleições na sua candidatura a presidente da câmara de Lisboa[1] quando toda a gente estava convencida da “verdade” (sondada por alguém) que o socialista Fernando Medina[2] seria o vencedor[3]. É obvio que estando nós convictos da veracidade da nossa verdade a queiramos impor aos outros. Assim mesmo, o animal humano faz questão de impor a sua verdade. Claro que ninguém impõe a sua verdade atirando-a ao outro de forma nua e crua. Não resultaria! Para se ser bem sucedido, impõem-se a verdade aos outros dourando-a. Iluminando-a, fulgindo-a, constelando-a e enriquecendo-a de modo a convencer quem a recebe que com ela irá ficar iluminado, fulgurante e enriquecido…

Bom, eu sou uma pessoa masculina (homem) mais do tipo de não querer impor verdades e também por isso desenvolvo uma terrível resistência a quem me quer impor a sua verdade. Acima de tudo temos que ser críticos, ponderados e fluidos na tomada de decisão sobre qual verdade nos convém mais, a nossa ou a dos outros. Ao fim de seis décadas de vida não me tenho saído mal! Tenho formulado as minhas verdades sempre com um elevado sentido crítico e uma inteligência razoável na sua moldagem em função de outras verdades. Sinto uma terrível aversão ao vendedor da banha da cobra, ao praticante das falinhas-mansas e ao vendedor de sonhos. Sofro de cavalgantes pragmatismo e subserviência à visão matemática da vida, de uma quase ausência de romantismo e de uma total aversão à compactuação com a cada vez maior prática pelo animal humano em decorar os seus ser e estar. Até aprecio uma mulher que usa moderadamente a cosmética mas abomino o animal humano que assenta nela toda a sua existência. E o facto é que continuo acutilantemente a ferir com a verdade enquanto acreditar que é na verdade que assenta a minha dignidade. E em verdade, em verdade vos digo que a dignidade é a minha maior riqueza…

Que os deuses continuem a presentear-nos com a sua verídica acutilância…

  1. Últimas eleições autárquicas no passado dia 26 de setembro.
  2. Presidente da câmara de Lisboa em exercício até às últimas eleições autárquicas no dia 26 de setembro.
  3. Para isso ajudaram as sondagens oficiais, que apontavam para a “inequívoca” vitória de Fernando Medina, o incumbente!

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