A Arte de Mandar Vir

Não, não me refiro à arte de mandar vir comida de fora, para incentivar o comércio dos restaurantes nesta época de pandemia. Refiro-me à arte de algumas pessoas em criticar o mesmo tema, sob várias perspetivas e formas. Senão vejamos…

Há dias vi um texto no Facebook que tinha como intenção satirizar o facto de, em muitas zonas do país, desde que foi decretado o Estado de Emergência até hoje, as pessoas se juntarem à janela para bater palmas aos profissionais de saúde. Todos os dias, às 22:00h, durante quase 3 meses. O texto simulava uma situação em que um casal de médicos pretende comprar uma casa de luxo, mas a moeda de troca são palmas. Negoceiam o número de palmas e por quanto tempo será necessário bater palmas até perfazer o valor total da casa. Como quem diz “palmas não pagam dívidas.”

Francamente, não acho que o texto tivesse a intenção de ser divulgado entre os comuns mortais, porque se assim for, sou da opinião que é uma sátira desnecessária e infeliz. Acontece que não é o cidadão comum que paga salários aos profissionais de saúde (pelo menos de forma direta), mas somos todos nós que pagamos  impostos para ter um Sistema de Saúde público, eficaz e competente. Por outro lado – achava eu que toda a gente tinha percebido isto – as palmas que se ouvem todos os dias às 22:00h durante 2 meses são a nossa simbólica e singela homenagem à dedicação destes profissionais, que estão na linha da frente contra esta doença desconhecida, enquanto nos mantemos em casa a evitar – tanto quanto possível – mais contaminação. O texto satírico, com a intenção que supostamente teve, parece-me mesquinho.

E por falar em mesquinho… também já vi manifestações de algumas pessoas no Facebook acerca dos vídeos que os profissionais de saúde fazem nas suas horas de trabalho (achamos nós!) através da aplicação TikTok. Põem uma música, fazem umas coreografias, de bata e máscaras. Qual é o problema destes críticos do teclado?! Alegam que os profissionais de saúde estão divertidíssimos no seu horário de trabalho, quando deviam estar a salvar vidas. Minha gente, acho que ninguém sabe melhor do que os profissionais de saúde como esta pandemia nos vai afetar a todos e, portanto, não percebo qual é o problema quando, perante o stress e pressão e espiral de emoções que estas pessoas vivem, conseguem ter alguns momentos de descontração. Não acho, de todo, que estes vídeos de poucos minutos ponham em causa o seu profissionalismo e integridade. Aliás, conheço duas enfermeiras que participam nesses vídeos e a minha primeira interpretação foi “estão a lidar com isto da melhor forma que podem!”.

Eu sei que críticos de teclado existem em todos os países, mas por vezes acho que os Portugueses são particularmente exímios nesta tarefa – que curiosamente também não dá dinheiro nem salva vidas!

Vamos lá desconfinar essas cabeças e ganhar algum bom senso!

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