Novos Mundos

Desde há quase dois anos entrei num processo de autoconhecimento mais profundo. Já tinha tentado diversas abordagens, umas mais concretas, outras mais espirituais – que até hoje procuro conciliar – mas nenhuma que fosse mesmo tocar-me na ferida, então acho que ainda estou bem enredada nesse processo.

Coincidência ou não, conheci alguém que mexeu comigo e, apesar de a nossa relação ter tido já os seus altos e baixos, noto que ela é provavelmente neste momento da minha vida o reflexo mais evidente das dualidades que tenho vivido e que sinto dentro mim, agora de forma mais consciente.

Ele não foi a única pessoa que me provocou estes sentimentos, mais ou menos desconfortáveis, mas acho que é a primeira vez que conscientemente percebo que as pessoas com quem convivemos e de quem gostamos podem ser, na realidade, reflexos de algo que realmente faz parte de nós: os nossos medos, os nossos julgamentos, as nossas expectativas, os nossos sonhos.

Já me senti grata por vários motivos por ter conhecido esta pessoa. Alguns desses motivos vejo agora que me apanharam desprevenida, não são provavelmente os mais positivos, mas são também importantes. É como se esta pessoa fosse uma espécie de chapada psicológica, como se estivesse a personificar aquilo que provavelmente são preconceitos e julgamentos meus sobre os outros – não de agora, mas de há muitos anos. E aí começam os conflitos dentro de mim.

Não consigo decidir se, com aquilo que fui sabendo, quero esta pessoa na minha vida. Provavelmente não me sinto preparada para abraçar outras realidades diferentes da minha ou provavelmente não a quero por perto, porque defini os meus valores e eles são inquestionáveis e inquebráveis e esta pessoa supostamente não os respeita com a sua forma de estar.

Eu tenho que pôr limites, tenho que mostrar aos outros como quero ser tratada. Acho importante definir os nossos limites, mas quando é que estes podem estar a ser enviesados por julgamentos? Uma frase que não me sai da cabeça é: o julgamento é a crença de que somos moralmente superiores a outros. Quem sou eu para julgar alguém por ter um estilo de vida diferente do meu ? Quem sou eu para julgar alguém porque vê o seu futuro de uma forma bem diferente da minha? Esta pessoa desiludiu-me de alguma forma, mesmo, ou sou só eu que não quero ver a realidade dela? É menos “boa pessoa” por isso ?

Penso que nunca existiu ninguém que me levasse a questionar as coisas desta forma, porque em boa verdade todos os meus amigos vêm de meios semelhantes, com objetivos e percursos semelhantes e lineares. Todos estão a cumprir o típico namorar –> casar –> ter filhos. Esta pessoa não – aliás, ela é incapaz de ter uma relação em exclusividade e com o mínimo de estabilidade – ela simplesmente não pensa sequer nisso! E eu falo em desonestidade, mas esta pessoa, comigo em particular, foi honesta desde o primeiro dia em que nos conhecemos. Sempre que necessário temos conversas (mais ou menos difíceis) em que podemos falar de tudo – até hoje eu sinto que posso falar de tudo. Então o que se passa…?

Provavelmente, na verdade, nunca quis ouvir. Nunca quis acreditar. Conheci, reuni informação com base no que eu já conhecia e avaliei com base nos meus valores, na minha moral. E num outro mundo isso parece que deixa de ser válido… acho que fará parte do meu processo entender se consigo lidar com esses outros mundos.

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